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quarta-feira, 29 de maio de 2013

Secretário de Comunicação do Pará trabalhou em campanhas comandadas por Orly e prestou serviços à Griffo, para a qual libera milionárias verbas de propaganda. Integrantes das comissões técnicas de licitações vencidas pela Griffo também trabalharam sob o comando de Orly. Repasses às agências de propaganda ocultam veículos de comunicação que recebem dinheiro do governo. Gastos de propaganda do Pará podem chegar a mais de R$ 180 milhões até 2015 – ou 5 vezes o que foi investido na construção do Hospital Metropolitano. Tudo na segunda parte da série “Griffo, a insaciável”.


O secretário de Comunicação Ney Messias: anos de trabalho para Orly e a Griffo, que recebe milhões em propaganda do governo. (Foto: Agência Pará)


(Leia aqui a primeira reportagem da série “Griffo, a insaciável”: http://pererecadavizinha.blogspot.com.br/2013/05/griffo-insaciavel-parte-1-ha-quase-20.html).



Qual a quantidade de dinheiro que fica realmente com a Griffo Comunicação, dessa bolada que poderá chegar a mais de R$ 70 milhões, até o final de 2014?

É difícil dizer, caro leitor.

A Perereca da Vizinha conversou com publicitários e jornalistas, que só concordaram em falar ao blog sob a condição de não terem de se identificar.

Eles garantem que a Griffo, por força de cláusulas contratuais, só deve ficar com 15% desse dinheiro, para intermediar a veiculação de anúncios, e com uns 10% sobre os valores pagos a gráficas e produtoras de rádio e TV, quando acompanha a execução dos anúncios que concebe.

O problema é que os únicos documentos acessíveis ao distinto público comprovam apenas a entrada desse dinheiro nos cofres da Griffo: são as notas de empenho que você viu aqui, todas devidamente pagas, conforme informações do portal da Transparência, mantido pelo próprio Governo Estadual.

O destino desse dinheiro depois que ele entra nos cofres da Griffo é um mistério para o contribuinte.

É certo que a Griffo repassa a maior parte dessa bolada para os veículos de comunicação que divulgam a propaganda oficial. 

Mas não se sabe quais são esses veículos, quanto é que recebem ou quais os critérios para receberem este ou aquele valor. 

Porque a finalidade dessa triangulação é justamente esta: ocultar os nomes dos principais beneficiários desse derrame de dinheiro público.

Os donos de agências de propaganda, aqueles que se dispuseram a conversar com a Perereca, alegam que o fato de as agências ficarem encarregadas de pagar os veículos de comunicação simplifica o processo de pagamento, e até evita a “obrigatoriedade de licitação”, para a veiculação de anúncios neste ou naquele jornal.

Tudo lári-lári.

Não há nada que impeça que o Governo pague diretamente os veículos de comunicação.

E, se houvesse, bastaria uma lei ou até uma simples cláusula num edital de licitação, para resolver tal problema.

Mas aí os pagamentos do Governo a jornais, rádios, Tvs, blogs, sites, e até a jornalistas, teriam de estar acessíveis pela internet, como determina a Lei da Transparência.

E o contribuinte, que é obrigado a bancar essa festa de arromba, poderia até acompanhar, através de entidades civis, o número de vezes que esses anúncios são veiculados, para checar se isso corresponde, de fato, ao que é pago pelo Governo. 

Há mais, porém. 

Quem fiscaliza o repasse de dinheiro pela Griffo aos veículos de comunicação é a Secretaria de Comunicação do Governo do Estado (Secom).

O problema é a estreita relação da Griffo com esses governos (que, em geral, ajudou a eleger), e até com as pessoas escolhidas para comandar a Secom.

Exemplos: o atual secretário de Comunicação, Ney Messias, e a adjunta dele, Simone Romero.

Ambos já trabalharam em campanhas eleitorais comandadas pelo dono da Griffo, o marqueteiro Orly Bezerra.

Simone, por exemplo, foi escolhida por Orly para trabalhar como assessora de Simão Jatene ainda em dezembro de 2009 ou janeiro de 2010, ou seja, ainda na fase de pré-campanha do atual governador.

E permaneceu como assessora de Jatene durante a campanha eleitoral de 2010, sempre sob o comando de Orly, e trabalhando, inclusive, dentro da Griffo.

Já a relação de Ney Messias com Orly Bezerra e a Griffo é ainda mais antiga.

Ney trabalha nas campanhas eleitorais comandadas por Orly desde meados da década de 1990.

E, também, já prestou serviços à própria Griffo, para a criação de anúncios para o Governo do Estado, junto com uma empresa que teria sido ligada a ele: a Voice.

É verdade que Ney Messias é um excelente profissional,  e do qual se desconhece envolvimento em maracutaias.

Mas o fato é que ele é um costumeiro prestador de serviços a Orly e à Griffo, para a qual agora assina a liberação de milionárias verbas de propaganda.

É uma situação parecida com a de alguns integrantes das comissões que avaliaram as propostas técnicas das agências, nas duas últimas licitações que a Griffo ganhou: as concorrências públicas para os contratos de propaganda do Governo do Estado e da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa). 

No Diário Oficial do Estado de 18 de abril de 2011, caderno 1, páginas 10 e 11, consta que os três integrantes da comissão técnica da licitação do Governo foram escolhidos, por sorteio, dentro de um grupo de nove jornalistas e publicitários:  

1) Mauro Lima, diretor de publicidade e propaganda da Secom;
2)Simone Romero, secretária adjunta de Comunicação;
3)Luís Cláudio Rocha Lima, presidente da Imprensa Oficial;
4) Bernadette Dopazzo, mais conhecida como Betty Dopazzo, diretora de Comunicação integrada da Funtelpa;
5) Sérgio Chene, assessor de Comunicação;
6) Marlicy Bemerguy, assessora de Comunicação;
7) Walbert Monteiro, então diretor de Relações Institucionais do Tribunal de Justiça do Pará;
8) Iran (Irisvaldo) de Souza, então assessor de Comunicação da Assembleia Legislativa;
9)Sílvia Salles, jornalista

Pois muito bem: desses 9, pelo menos 5 já trabalharam em campanhas eleitorais comandas por Orly.

São eles: Simone Romero, Luís Cláudio Rocha Lima, Betty Dopazzo, Marlicy Bemerguy e Iran de Souza.

Todos trabalharam, por exemplo, na campanha eleitoral de Jatene, em 2010, dois deles, aliás, dentro da Griffo: Simone e Luís Cláudio Rocha Lima (que levou pelo menos UMA esculhambação impressionante de Orly, ouvida em boa parte da agência).



Já Betty Dopazzo, Marlicy Bemerguy e Iran de Souza trabalharam em várias campanhas comandadas por Orly e prestam serviços à Griffo desde meados da década de 1990 – pelo menos.

Ao final dos sorteios, a Comissão Técnica ficou assim: Mauro Lima, Walber Monteiro e Simone Romero. 

Na Assembleia Legislativa, uma situação semelhante. 

Segundo o Diário Oficial do Estado de 11 de setembro de 2012, caderno 7, página 6, eis a lista do grupo de nove jornalistas e publicitários, do qual saiu a comissão técnica do certame:  

1)Iran (Irisvaldo) de Souza, então assessor de Imprensa da Alepa (o mesmo que esteve na licitação acima e que hoje é assessor de Comunicação da Prefeitura de Belém);
2)Ana Claudina Melo dos Santos, jornalista e funcionária da Alepa;
3)Cesar Renato Monteiro da Costa, assessor de imprensa;
4)Lília Soares Affonso, assessora de imprensa;
5)Micheline Ferreira, assessora de imprensa;
6)Pâmela Pimentel dos Santos, redatora;
7) Simone Romero, secretária adjunta de Comunicação do Governo (a mesma da licitação anterior);
8) Danielle do Socorro Filgueiras da Silva, assessora de Comunicação no Governo do Estado;
9) Janise Abud Barreto, assessora de Comunicação da Casa Civil do Governo do Estado.

Desses, pelo menos cinco já trabalharam em campanhas eleitorais comandadas por Orly e já prestaram serviços à Griffo: Iran de Souza, Simone Romero, Lílian Affonso, Janise Abud e Micheline Ferreira – que, aliás, também trabalha há anos como assessora do deputado Manoel Pioneiro (PSDB), que presidia a Alepa na época da abertura da licitação.

E a comissão técnica que julgou as propostas dos concorrentes do certame ficou assim: Simone Romero, Iran de Souza e Ana Claudina Melo dos Santos – a Dina Santos, a única que, até onde se sabe, nunca teve qualquer relação com a Griffo. 



Uma sangria impressionante 

Os R$ 31 milhões já recebidos pela Griffo Comunicação e Jornalismo, em apenas um ano e meio de trabalho, são, porém, apenas uma pequena  parte da impressionante verba de propaganda do Governo do Pará.

Além da Griffo, há outras cinco agências que atendem o contrato de propaganda do Governo Jatene, que já alcança mais de R$ 36,5 milhões anuais.

Na verdade, o PPA (Plano Plurianual) previa que os gastos em propaganda somassem R$ 174 milhões, no período entre 2012 e 2015.

Essa previsão, no entanto, deve ser ultrapassada.

Só no ano passado, o Governo gastou mais de R$ 42,3 milhões em propaganda institucional, publicidade legal e de utilidade pública, conforme o balancete de dezembro, que está no site da Secretaria da Fazenda (Sefa).

Os números, no entanto, não incluem os gastos em propaganda do Banpara ou os mais de R$ 13,4 milhões da rubrica “serviços gráficos”, na qual o Governo costuma encafuar alguns gastos em propaganda.

Já a previsão revisada do PPA é a de que o Governo gaste quase R$ 134,9 milhões apenas em “ações de publicidade”, entre 2013 e 2015.

Esses R$ 134,9 milhões não incluem, no entanto, os mais de R$ 4,9 milhões que serão gastos, no mesmo período, em avisos e editais; e os R$ 717,6 mil destinados à comunicação institucional.

Assim, essas despesas devem atingir, no total, mais de R$ 140,5 milhões. 

O que, somado ao que foi torrado em 2012, faz com que os gastos em propaganda do Governo possam chegar a quase R$ 183 milhões até 2015 – ou cinco vezes o que foi gasto na construção do Hospital Metropolitano, que ficou, em valores atualizados pelo IPCA-E, em R$ 36 milhões. 

Leia nas próximas reportagens da série “Griffo, a Insaciável”:  

_Dono da Griffo subestima valores recebidos em campanhas eleitorais e nem aparece nas prestações de contas de algumas delas;
_Os parentes de Orly Bezerra empregados no Governo e na Prefeitura e os valores que recebem em cargos de direção e assessoramento;
_Uma overdose de propaganda: os preços cobrados pela veiculação dos anúncios do governo;
_As campanhas realizadas por Orly e as licitações que ganhou. 

E veja, nos quadrinhos abaixo, documentos e informações obtidas na internet, mostrando os gastos de propaganda do governo e a relação entre Orly, a Griffo, o secretário de Comunicação, Ney Messias, e integrantes das comissões técnicas das licitações do Governo e da Alepa. 

Aqui, uma foto da equipe de marketing da campanha eleitoral de Jatene, em 2010, comandada por Orly. Nela aparecem Ney Messias, Simone Romero e Betty Dopazzo (a foto é do blog do poeta Ronaldo Franco):





Aqui, um comentário do próprio Orly, no blog da repórter Rita Soares, no qual ele menciona alguns dos profissionais que trabalharam sob o comando dele, na campanha de Jatene: Ney Messias, Simone Romero e Lília Affonso. O comentário está na caixinha da postagem “O Marqueteiro da Vitória”, datada de 13 de novembro de 2010:



Aqui, no blog do locutor Sílvio Jr (postagem “Missão Cumprida na Comunicação, datada de dezembro de 2011), novamente Ney Messias, em campanha comandada por Orly: a campanha do Não. Confira:



Abaixo, novamente no blog do Sílvio Jr (postagem “A Era da Voice Áudio&Marketing”, datada de abril de 2011), a informação de que Ney teria sido um dos donos da Voice. Nas fotos antigas da Voice aparece, além de Ney, Betty Dopazzo:




Aqui, premiações recebidas por Ney e Orly, em 1999, por trabalhos realizados pela Griffo, para o Governo Almir Gabriel:



Abaixo, um trecho de entrevista concedida por Orly ao blog do jornalista Ronaldo Brasiliense, no qual novamente Ney e Simone são citados como integrantes da equipe que ele comandou, na última campanha de Jatene. Repare que o teor da declaração é semelhante ao do comentário no blog da Rita:


Aqui, um comentário deixado pelo publicitário Walter Jr, na caixinha da postagem “As inserções do PSDB no Pará”, publicada em 04 de dezembro de 2007, no blog do jornalista Afonso Klautau. Nele, Walter Jr cita profissionais que trabalharam nas campanhas do PSDB para o Governo do Estado, em 1994 e 1998, ambas comandadas por Orly. Entre os profissionais citados estão Ney Messias e Marlice Bemerguy – além do locutor Sílvio Jr, autor de duas postagens referidas acima. Veja:





Abaixo, o quadrinho extraído do Diário Oficial do Estado de 11 de setembro de 2012, caderno 7, página 6, com a escolha da comissão técnica da licitação de propaganda da Alepa:



Abaixo, no quadrinho extraído do Diário Oficial do Estado de 18 de abril de 2011, caderno 1, páginas 10 e 11, a ata da reunião para a escolha da comissão técnica da licitação de propaganda do Governo do Estado:  






Aqui, no balancete de dezembro de 2012, o acumulado dos gastos em propaganda do Governo do Estado (veja na coluna F). O número deve ser parecido com o registrado no Balanço Geral do Estado, que até ontem, no entanto, ainda não se encontrava na internet, apesar de já estarmos quase no meio do ano:




Abaixo, o PPA revisado, com previsão de gastos superiores a R$ 134,8 milhões, entre 2013 e 2015, apenas em ações de publicidade. O quadrinho também registra – embora não estejam assinaladas – as previsões de gastos com editais e com comunicação institucional: 



Não perca a próxima reportagem da série “Griffo, a insaciável”, que bomba no Face e já começa a repercutir fora do Pará!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Griffo, a insaciável (parte 1): há quase 20 anos, Griffo Comunicação ganha todas as licitações de propaganda dos governos que ajuda a eleger. Nas duas últimas licitações, jornalistas que trabalharam para a empresa integraram as comissões técnicas dos certames. Apesar dos milhões que recebe, dono da Griffo tem parentes empregados no Governo e na PMB. Até 2014, a empresa deverá receber mais de R$ 70 milhões dos cofres públicos - ou quase o dobro do que custou o Hospital Metropolitano.


Jatene e Orly, uma parceria milionária: até 2014,  Griffo deverá receber mais de R$ 70 milhões



É um caso para Malba Tahan resolver, já que o Ministério Público Estadual nem tchuns.

Desde meados da década de 1990,  o Pará é palco de uma estranhíssima coincidência: o marqueteiro Orly Bezerra elege um político para o Governo do Estado ou para a Prefeitura de Belém... - e quem vence a licitação para a milionária conta de propaganda do Governo ou da Prefeitura é a Griffo Comunicação e Jornalismo, que pertence ao mesmíssimo Orly.

No entanto, quando o candidato de Orly perde a eleição, a Griffo também perde a licitação.

Daí a dúvida, que parece só não incomodar o Ministério Público: qual a probabilidade matemática da repetição de uma coincidência dessas, ao longo de quase 20 anos?

Pior: nas duas últimas licitações em que a Griffo saiu vencedora (em 2011, para a propaganda do Governo do Pará; e em 2012, para a conta de propaganda da Assembleia Legislativa – Alepa) há fatos, no mínimo, instigantes.

Em ambas as licitações, as propostas técnicas das concorrentes foram avaliadas por uma comissão integrada por 3 jornalistas e publicitários.

E também em ambas as licitações, esses 3 jornalistas e publicitários foram escolhidos, por sorteio, dentro de um grupo de 9 pessoas.

O problema é que das 9 pessoas de cada um desses grupos, 5 (ou mais da metade) já trabalharam para a Griffo em campanhas eleitorais, inclusive, nas eleições para o Governo do Estado e o Senado Federal, em 2006 e 2010.

Algumas, aliás, prestam serviços há mais de uma década à empresa; outras, já foram até indicadas, informalmente, para cargos públicos por Orly.

Como o leitor já deve ter deduzido, o resultado desse “arranjo matemático” não poderia ser outro: na licitação do Governo, pelo menos uma integrante da comissão que avaliou as propostas técnicas, já trabalhou para a Griffo.

Na Alepa, pelo menos dois integrantes da comissão já prestaram serviços à empresa.

E isso num estado que possui, além de jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão, mais de três dezenas de empresas de propaganda.

É ou não é um “causo” que deixaria Malba Tahan feliz da vida em decifrar? 

No entanto, ainda mais impressionante é a montanha de dinheiro que a Griffo deverá faturar dos cofres públicos paraenses, até 2014: pelo menos, R$ 70 milhões – e numa conta muito, mas muito por baixo.

Só por serviços realizados em 2011, através de um contrato de propaganda assinado em julho daquele ano, a Griffo recebeu do Governo do Estado mais de R$ 9,2 milhões.

Foram R$ 8,6 milhões pagos ainda em 2011, e outros R$ 604 mil quitados já em 2012, através da rubrica orçamentária “Despesas de Exercícios Anteriores”, conforme dados do portal Transparência Pará, mantido pelo próprio Governo Estadual. 

No ano passado, já com o contrato de propaganda bombando ao longo de doze meses, a Griffo recebeu do Governo mais de R$ 21,7 milhões.

Desses R$ 21,7 milhões, R$18,5 milhões foram quitados naquele mesmo ano, através da rubrica “Outros serviços de Terceiros – Pessoa Jurídica”, e R$ 3,2 milhões foram pagos apenas em 2013, na rubrica “Despesas de Exercícios Anteriores”. 

Total de pagamentos à Griffo por um ano e meio de trabalho: quase R$ 31 milhões. 

Isso coloca a possibilidade de que só o contrato de propaganda do Governo do Estado venha a render a Griffo, até o final de 2014, mais de R$ 60 milhões.

Mas, desde julho de 2011, a empresa também mantém um contrato de R$ 3,2 milhões por ano com o Banco do Estado do Pará (Banpará), o que deverá resultar em um ganho superior a R$ 10 milhões, também até 2014.

Além disso, a Griffo ganhou a conta de propaganda da Alepa, que estaria, há alguns anos, em cerca de R$ 9 milhões – e que a Perereca da Vizinha ainda  tenta descobrir em quanto está hoje.

Só para você ter ideia do que representa essa bolada de R$ 70 milhões, num estado pobre como o Pará: ela quase empata com os R$ 76 milhões de ICMS recebidos, no ano passado, pelo município de Marabá, com mais de 233 mil habitantes, e uma das locomotivas do Sul e Sudeste do estado.

E representa, também, quase o dobro daquilo que foi gasto na construção do Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência (Ananindeua), inaugurado em março de 2006: R$ 25,2 milhões, ou o equivalente, em março de 2013, a R$ 36 milhões, em valores corrigidos pelo IPCA-E.

No entanto, apesar de todos esses milhões que recebe dos cofres públicos, o marqueteiro Orly Bezerra ainda possui pelo menos cinco parentes que ocupam cargos de direção e assessoramento no Governo do Estado e na Prefeitura de Belém, numa impressionante relação de promiscuidade entre uma empresa e o Poder Público. 

Leia nas próximas reportagens da série “Griffo, a insaciável”: 

_As licitações do Governo e da Alepa para a propaganda, ambas vencidas pela Griffo;

_As coincidências entre as campanhas eleitorais realizadas por Orly e as contas de propaganda que ganhou;

_Os parentes do marqueteiro que possuem cargos no Governo e na Prefeitura.

_Afinal, que fim levou o rumoroso caso da PrevSaúde? 

E confira nos quadrinhos abaixo, extraídos do portal Transparência Pará e do Diário Oficial do Estado (DOE), os milhões carreados para a Griffo Comunicação. 

Primeiro, o contrato de propaganda do Governo do Estado.

O extrato contratual, publicado no Diário Oficial de 12 de julho de 2011, caderno 1, página 7:



E o primeiro termo aditivo a esse contrato, publicado no DOE de 11 de julho de 2012, caderno 4, página 3:



Aqui,  a Nota de Empenho de mais de R$ 8,6 milhões paga à Griffo em 2011, na rubrica “Outros Serviços de Terceiros – Pessoa Jurídica”:


E aqui, a Nota de Empenho de mais de R$ 604 mil, relativa a serviços de 2011, mas paga à empresa já em 2012, já rubrica “Despesas de Exercícios Anteriores":


Abaixo, os pagamentos à Griffo em 2012 (repare que, nas listas, estão assinalados apenas os maiores, embora elas registrem outros que não foram marcados):







Aqui, o pagamento de mais de R$ 3 milhões à Griffo, em fevereiro de 2013, na rubrica “Despesas de Exercícios Anteriores” – o pagamento é referente a serviços realizados em 2012:



Abaixo, o contrato da Griffo com o Banpará.

O extrato contratual, publicado no Diário Oficial de 18 de julho de 2011, caderno 1, página 14:



O primeiro aditivo, de R$ 625 mil, publicado no Diário Oficial de 24 de fevereiro de 2012, caderno 2, página 11:



O segundo aditivo, no valor de R$ 3,2 milhões, publicado no Diário Oficial de 12 de julho de 2012, caderno 4, página 5:



Abaixo, a homologação e adjudicação da Concorrência 001/2012, realizada pela Alepa, que teve a Griffo e a DC3 como vencedoras. O documento foi publicado pelo Diário Oficial no último dia 25 de abril de 2013, caderno 6, página 4: 




É a Perereca da Vizinha abrindo a caixa preta da comunicação no Pará!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A incrível história de Onde Judas Perdeu as Botas (Parte 2)



(Leia a primeira parte da Incrível História de Onde Judas Perdeu as Botas: http://pererecadavizinha.blogspot.com.br/2012/10/a-incrivel-historia-de-onde-judas.html). 


 
O Eminente e Douto Marqueteiro de Onde Judas Perdeu as Botas era mais conhecido como 171.

O apelido viera de um costume peculiar.

Menino pobre, mas sedento de poder, logo descobriu o poder da ilusão - a “mercadoria” mais apreciada pelas gentes, em qualquer tempo e lugar.

Assim, passou a carregar consigo toda sorte de bugigangas: malabares, balões, apitos, estrelinhas, serpentinas, brinquedinhos para fazer fumaça e bolhas de sabão.

E enquanto deslumbrava os coleguinhas, rapelava figurinhas raras, as mais belas petecas, as melhores propriedades do Banco Imobiliário. 

Bem mais tarde, já como Eminente e Douto Marqueteiro daquela República Imperial, elevou à glória as técnicas de hipnose coletiva.

Em megaespetáculos televisados, o presidente imperial aparecia ora como Moisés-no-Mar-Vermelho, ora como Jesus-na-Batalha-de-Armagedom.

Tudo em meio a jogos de luzes, tambores, flautistas de Hamelin, dançarinos zulus, odaliscas, lambadas e guitarradas, acrobatas, encantadores de serpentes, trapezistas e engolidores de fogo.

Era assim: de uma grande cartola mágica (diz que herança de seu tatatatatatatatatataravô, o Mago Merlin), 171 fazia ressurgir o caos primordial.

O céu enegrecia e era cortado por relâmpagos e trovões.

Vulcões derramavam lavas pompeanas.

E o exército do faraó, as pragas do Egito, os fariseus, escribas e saduceus, a Besta, o Falso Profeta, os quatro cavaleiros do Apocalipse, São Cipriano, as bruxas de Salém e HAL 9000 se juntavam às legiões demoníacas, comandadas por Lúcifer, Asmodeu, Astaroth e Belfegor, com a retaguarda da Matinta Perera, da Moça-do-Táxi e da Mula-Sem-Cabeça, a prenunciar o fim dos tempos...

Mas eis que então 171 retirava da cartola o Herói, o Salvador.

E as ruas de Onde Judas Perdeu as Botas, repletas de lixo, barracos, palafitas e esgotos a céu aberto, viravam belíssimos e perfumados bulevares parisienses.

E os ratos, moscas, mosquitos, ladrões, puxa-sacos, vigaristas, as pragas e os patifes de toda ordem que empestavam aquela ilha, transformavam-se em lindos coelhinhos, mimosos beija-flores, resplendentes querubins ungidos...

É verdade, caro leitor, que bastaria que alguém abrisse a porta de sua casa, para que todo aquele ‘admirável mundo novo’ se desfizesse.

O problema é que permanecia no distinto público a convicção de que o Messias, sabe-se lá por que, havia rrrealmente decidido renascer em Onde Judas Perdeu as Botas...

E que o “futuro radiante”, ao qual a ilha estava “predestinada”, já começara, de fato, a se concretizar.

Até porque, nos megaespetáculos de 171, até os anjos exaltavam as qualidades que nem a ilha nem os seus habitantes possuíam, mas, imaginavam possuir: tudo em Onde Judas Perdeu as Botas era “novo”, “extraordinário”, “fantástico”, “insuperável”, “magnífico”, “grandioso”...

E todos os seus habitantes eram tão virtuosos, mas tão virtuosos que fariam até um mórmon parecer um desregrado...

Assim, não cansavam de repetir: “ó, como somos grandes!”, “ó, como somos ricos!”, “ó, como somos únicos!”, a bater no peito e a proclamar o orgulho de se nascer em Onde Judas Perdeu as Botas...

E enquanto permaneciam imersos nessa leseira, nesse surto psicótico, mais e mais os vigaristas se sucediam no comando daquela ilha; mais e mais a plebe morria nas filas de autênticos chiqueiros, apelidados de “hospitais”.

Bandidos surrupiavam a merenda escolar e assaltavam até a polícia, em plena luz do dia.

E tudo era lama – em sentido real e figurado.



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A capacidade ilusionista de 171 acabou por transformá-lo em uma das maiores fortunas daquela República Imperial.

Porque, além de adestrar a plebe como nenhum outro, também possuía invejável talento para fraudar licitações, sonegar impostos, lavar dinheiro e traficar informações.

E era aqui, em verdade, que assentava o poder do Eminente e Douto Marqueteiro: uma rede de serviçais espalhados em pontos estratégicos, para cascavilhar tudo o que acontecia em cada palmo daquela ilha – nos palácios, nos casebres, nos bares, nas cozinhas, nas alcovas e, ao que se diz, até nos cemitérios...

Isso lhe permitia não apenas conhecer em detalhes todos os planos dos adversários.

Mas, sobretudo, como eram esses adversários na intimidade, sem a infinidade de máscaras públicas.

Assim, podia prever as suas ações e reações futuras.

E até conduzi-los às ações e reações que lhe fossem mais convenientes.

Em suma, como bem poderiam ter ensinado Sócrates e Maquiavel: conhece profundamente o teu inimigo, para levá-lo a trabalhar por ti...



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No entanto, o mais impressionante dessa rede de futricas nem era a visão estratégica, mas, o talento do marqueteiro para fraudar até a personalidade alheia.

Porque o toque de gênio consistia em misturar informações verdadeiras a mentiras compatíveis e disseminar, insistentemente, tal engodo, até que virasse uma espécie de revelação espiritual.

Assim, até São Francisco de Assis podia se transformar, aos olhos públicos, em um discípulo de Satanás  - e ao ponto de até ele, São Francisco, começar a se perguntar se as suas ações não seriam, em verdade, inspiradas pelo demônio... 

Ao mesmo tempo, todas as patifarias do presidente imperial – um chefe de quadrilha preguiçoso, incompetente, acanalhado e bilé - viravam ações épicas, até abnegadas, típicas de um espírito sublime.

E, por incrível que pareça, toda essa lavagem cerebral era paga com dinheiro público: através de fraudes licitatórias e contábeis e de generosos benefícios fiscais, milhões e milhões eram subtraídos ao erário e injetados na docilidade dos veículos de comunicação daquela ilha.

E nos pasquins que o Eminente e Douto Marqueteiro fazia circular ilegalmente, durante as Eleições Gerais, para enxovalhar as principais lideranças oposicionistas.

E nas revistas, blogs e jornais editados apenas e tão somente para elogiar o presidente imperial: seus “magníficos dotes vocais e poéticos”, seu “grandioso espírito público”, sua “inimitável capacidade empreendedora”, seu “indisfarçável amor pelo trabalho”.
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Os operadores da rede intrigas de 171, muitos deles jornalistas, padeciam de verdadeira compulsão pela intriga e compadrio.

Especialistas em retorcer informações, bisbilhotavam até as cuecas das lideranças oposicionistas, para transformar qualquer coisa em escândalo.

E quando nada encontravam, simplesmente, inventavam.

Bastava um copo de uísque em um bar para que o sujeito virasse um “alcoólatra”; um comentário incisivo, para que virasse um “desequilibrado cheio de ódio”.

E como consideravam que mulheres eram apenas vaginas (e tinham de se contentar em serem apenas vaginas), reservavam às oposicionistas uma perseguição implacável: eram chamadas de  “piranhas”, “vagabundas”, “prostitutas”, arrastadas pelas ruas e apedrejadas em praça pública.

No entanto, esses pitorescos guardiões da moral e dos bons costumes nada diziam sobre as amantes do presidente imperial, todas mantidas com dinheiro do erário, nem sobre as suas perversões e milionárias falcatruas.

E, em verdade, não havia serviço imundo que recusassem, sempre em busca de uma babugem, um michê: uma sinecura para o filho, o irmão, marido, esposa, cunhado; o pagamento de pensão alimentícia para a ex-mulher; uma homenagem nas academias de meia pataca que abundavam naquela ilha; um “furo” pré-fabricado de reportagem; uma cesta de vinhos, um simples peru de Natal.

Por isso, também exibiam diante do marqueteiro um comportamento dulcíssimo: não diziam nem ai quando ele desatava a humilhá-los com toda a sorte de impropérios, em gritos histéricos, alucinados, que eram ouvidos até na vizinhança.

E era esta a característica mais reveladora do caráter do marqueteiro: diante do presidente imperial e de qualquer pessoa que lhe pudesse arranjar uma fraude a mais, até a voz dele se transformava, assumindo um tom servil.

No entanto, bastava que alguém estivesse apenas um milímetro abaixo dele, para conhecer-lhe a face doentia, que se comprazia em humilhar.

Em tais ocasiões, 171 sentia-se um deus, com o poder de esmagar aquela criatura repulsiva, que quase lhe lambia o ânus em busca de um favor, uma fraude, um “presente”.

E, no entanto, havia entre eles uma profunda e indisfarçável identificação.

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A Perereca adverte: esta obra é de ficção, sem a mínima semelhança com a realidade, como bem sabe o arguto leitor.

Assim, só serão aceitos comentários na mesma linha.

A blogueira informa, aliás, que está até pensando em transformar em livro a Incrível História de Onde Judas Perdeu as Botas.

Claro está, se conseguir o patrocínio da Secult...