Ban

domingo, 25 de novembro de 2007

Noel


Com Que Roupa?


Agora vou mudar minha conduta
Eu vou pra luta,
Pois eu quero me aprumar
Vou tratar você com a força bruta
Pra poder me reabilitar,
Pois esta vida não está sopa,
E eu pergunto: com que roupa?

Com que roupa eu vou?
Pro samba que você me convidou.
Com que roupa eu vou?
Pro samba que você me convidou.

Agora eu não ando mais fagueiro
Pois o dinheiro
Não é fácil de ganhar
Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro
Não consigo ter nem pra gastar,
Eu já corri de vento em popa
Mas agora com que roupa?

Com que roupa eu vou
Pro samba que você me convidou
Com que roupa eu vou
Pro samba que você me convidou

Eu hoje estou pulando como sapo
Pra ver se escapo
Desta praga de urubu
Já estou coberto de farrapo,
Eu vou acabar ficando nu,
Meu paletó virou estopa
E eu nem sei mais com que roupa?

Com que roupa eu vou?
Pro samba que você me convidou
Com que roupa eu vou?
Pro samba que você me convidou.

Seu português agora foi-se embora
Já deu o fora
E levou seu capital
Esqueceu quem tanto amava outrora
Foi no Adamastor pra Portugal
Pra se casar com uma cachopa!
E agora, com que roupa?

Com que roupa eu vou?
Pro samba que você me convidou
Com que roupa eu vou?
Pro samba que você me convidou.

(Noel Rosa)

sábado, 24 de novembro de 2007

menina1


Um caso escabroso



A história dessa adolescente que ficou presa durante dias entre duas dezenas de homens é um caso escabroso; não há por onde se lhe pegar.


Confesso que se trata de uma situação tão brutal e tão constrangedora que deixa a gente até sem palavras.


É uma história tão selvagem, tão absurda, que parece impossível de acontecer no Ocidente, em pleno século XXI.


Não fosse adolescente, fosse anciã; não fosse uma garota, fosse uma prostituta; não fossem vinte homens, mas apenas um ou dois - ainda assim não haveria justificativa ou atenuante possível para o que aconteceu.


Eu, pelo menos, não consigo encontrar.


Ainda agora me custa crer que isso não tenha decorrido de maldade, de vingança, de alguma questão pessoal, mas, de incompetência pura e simples.


E de uma mentalidade do tempo das cavernas, que (Deus do Céu!) parece predominar em nossas polícias e em nosso Judiciário - e até, pelo visto, em muitos insuspeitos doutores.


A mentalidade que vê direitos humanos como “privilégios” de alguns.


Não há o que fazer, não há justificativa a apresentar; perdão que se peça à sociedade e a essa garotinha, que possa, de alguma forma, diminuir o horror que viveu e que, provavelmente, jamais esquecerá.


Um horror que, certamente, marcou, a ferro e fogo, o mais profundo da alma...


Mas, mesmo assim, é preciso ter a grandeza de pedir perdão, porque isso é o mínimo que espera sociedade.


Era preciso que o Governo do Estado tivesse tido essa grandeza, desde o começo. E não apenas o Executivo, mas, o Ministério Público e o Judiciário, também.


Desde o primeiro momento, era preciso que os companheiros tivessem olhado nos olhos da sociedade e expressado a dor e a revolta que sentiam, por não terem conseguido evitar que uma coisa assim acontecesse a um ser humano, e o que pior, a uma garotinha.


Era preciso que deixassem claro, desde o primeiro momento, que não compactuam com algo assim; e que jamais deixarão barato algo assim; que irão às últimas conseqüências, para apurar e punir. E, sobretudo, para evitar que algo assim possa se repetir.


Essa coalizão que hoje comanda o Governo do Pará é feita de pessoas que têm uma história de vida, em defesa dos direitos humanos e constitucionais.


Tanto no PT, quanto no PMDB, quanto no PSB são milhares os companheiros que, mesmo diante de ameaças à própria integridade física, jamais recuaram na defesa de pessoas presas, torturadas e violentadas.


Temos, todos, uma história de luta que se agiganta, diante de alguns daqueles que, oportunisticamente, hoje se aproveitam desse episódio, apenas, para acusar – mas que são os mesmos que defendem, muitas vezes, a diminuição da maioridade penal.


Os mesmos que serviram, ciosamente, a uma ditadura, que prendia, matava, arrebentava.


Os mesmos que ficaram caladinhos diante do massacre de Eldorado dos Carajás e de tantos outros massacres ocorridos em nosso estado, ao longo dos últimos doze anos.


Mesmo assim é preciso admitir os erros trágicos, desse episódio.

E o maior deles foi não termos tido a capacidade de sofrer, de nos comovermos, desde o começo, junto com a sociedade.


Porque os companheiros que estão no governo preferiram agir, em primeiro lugar, como governo, preocupando-se, em primeiro lugar, com o aproveitamento do caso pela oposição, ao invés de agirem como sempre agiram: como cidadãos.


Sinceramente, fiquei perplexa ao constatar a insensibilidade de alguns, ao tomarem conhecimento do caso.


Por um erro brutal – para dizer o de menos – tratou-se, primeiro, de tentar transformar a vítima em algoz.


Ficou-se dizendo que a menina não era menor; era maior; que não era “moça direita”. Em suma, que pertencia a uma categoria criminosa incriada, no Estado democrático de direitos, porque passível de ser, simplesmente, atirada aos leões...


Não sei o que se passou nas mentes “brilhantes” que pensaram algo tão absurdo.


Talvez que essas pessoas não tenham nem mães, nem filhas, nem irmãs, nem, ao menos, conhecidas do sexo feminino.


Ou, se forem mulheres, talvez que ao invés de se orgulharem, tenham é vergonha do sexo que carregam entre as pernas.


Só sei é que tal estratégia, se assim pode ser chamada, gerou uma catatonia cujo resultado é essa bola de neve que aí está.


E que tenta nos transformar em vilões de um Estado que recebemos desmantelado, porque pacientemente desmantelado, em doze anos de tucanato.


Creio que mesmo se vivesse mil anos jamais poderia compreender como é que um ser humano, especialmente dessa categoria tão ciosa da própria inteligência – os doutores – pode raciocinar de forma tão abestalhada.


Como é possível que alguém possa ao menos imaginar a possibilidade de justificar a prisão de uma menina ou de uma mulher, entre dezenas de homem, por ela ser puta, “safada”, ou o que quer que valha?


Mas será que não houve um único cérebro, uma única alma neste governo que não visse logo que isso é um atentado tremendo a direitos humanos fundamentais?


Minha xará deveria ter sido firme, no discurso e na ação, desde o primeiro momento.


Se as informações eram parcas e desencontradas, deveria ter mandado imediatamente a Abaetetuba, que fica logo ali, pessoas de sua confiança – as secretárias de Segurança e de Justiça e Direitos Humanos, por exemplo.


E afastado de bate pronto todos os possíveis envolvidos, até o resultado da apuração.


Num momento como esse, se os companheiros me permitem, não dá, simplesmente, para ficar punhetando.

É preciso fazer desde logo o básico. E, se for o caso, errar – mas, pelo que se fez a mais, e não, simplesmente, pelo que se deixou de fazer.


E agora me dêem licença que vou sair com a minha garotinha, a filhinha que é a coisa mais preciosa que Deus me deu.


Quero “lamber a cria”, abraçá-la muito, dizer-lhe do meu amor, como faço todos os dias.


E erguer as mãos para os céus por não ter sido ela...

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Julgamento 2


A Vergonha da Década




I



O julgamento do caso Novelino, que ontem terminou, é uma dolorosa vergonha para a sociedade paraense.

Primeiro porque, depois de todos os recursos materiais e humanos que mobilizou, revelou-se inócuo: os quatro principais réus, cujas penas individuais são de 80 anos, terão direito a um novo julgamento, que acontecerá, possivelmente, no ano que vem.

Segundo porque o tribunal do júri, no dia de hoje (20/11/2007), assemelhou-se bem mais a um circo do que aquilo que nós, sociedade, imaginamos de um tribunal.

Na condição de cidadã estou convicta de que tenho direito de cobrar do juiz Raimundo Moisés Flexa e do Tribunal de Justiça do Estado uma explicação plausível para o que aconteceu.

Afinal, os meritíssimos não passam de meros cidadãos iguais a mim, com, apenas, um diferencial de função: são pagos para administrar a Justiça. E só.

Mas, será que foi feita Justiça? Será que, hoje, um pouco mais do que ontem, sabemos o que de fato se passou na Service Brasil, no fatídico 25 de abril deste ano? Será que sabemos, de fato, o que se oculta por trás desses crimes?

Não creio. E não creio, justamente, porque o ilustre magistrado permitiu que se transformasse o “seu” tribunal – como ele tantas vezes enfatizou; como se fosse do próprio bolso dele que saíssem os recursos para custear toda aquela estrutura... – numa escabrosa mistura de dramalhão mexicano com auto de fé.

Não estou aqui para defender Chico Ferreira, Luiz Araújo, Sebastião Cardias e José Augusto Marroquim dos crimes de que são acusados.

A meu ver, todos, em maior ou menor grau, contribuíram para a perversidade que cercou esses assassinatos.

Mas, daí a não lhes permitir chance de defesa, vai enorme distância.

Se não deram, de fato, chance de defesa às vítimas, nós, sociedade, com muito mais razão, deveríamos lhes conceder isso.

Até para mostrar que nos encontramos num patamar civilizatório superior. E que, de fato, temos todo o direito de lhes impor essa cobrança sócio-judicial.

Por diversas vezes o ilustre meritíssimo, Raimundo Moisés Flexa, enfatizou que não permitiria que a família Novelino fosse posta em julgamento.

Corretíssimo, talvez, do ponto de vista humano. Questionável, no entanto, do ponto de vista do pleno direito de defesa, uma vez que as práticas dos Novelino eram um ponto essencial da defesa dos réus, como possível motivação dos assassinatos.

Afinal, havia, até, em declarações de réus, referência a seqüestro do familiar de um deles, para quitação de uma dívida de agiotagem – que, até onde eu sei, é uma ilegalidade.

Mas, tudo bem. Façamos de conta que, apesar de questionável, a decisão do ilustre meritíssimo foi correta.

O problema é que o Dr. Raimundo Flexa, se não permitiu que a conduta das vítimas fosse minimamente questionada no “seu” tribunal, também não deveria ter permitido que fossem santificadas. Mas, foi isso, exatamente, o que aconteceu.

Em um filme, de um ou dois minutos, de repente e não mais que de repente, surgiram as vítimas, Ubiraci e Uraquitan, falando do amor que devotavam ao pai, segundo eles, um “espelho”, um “exemplo” de vida.

Seguiram-se, então, imagens chocantes dos crimes – uma bela edição. E, como se poderia esperar, a emoção explodiu na platéia: ouviram-se soluços altos dos familiares e viram-se lágrimas até em quem não deveria lacrimar...

Não questiono o trabalho dos assistentes de acusação, Roberto Lauria e Antonio Neto, pois, que realizaram magistralmente o que deles se esperava.

Agiram como os brilhantes advogados que são. E, talvez, até um pouco mais: como escolares inteligentíssimos, topo de linha, aos quais fosse permitida uma interessantíssima experiência, em que fôssemos as cobaias, acerca do predomínio da emoção sobre a razão, na espécie humana...

Quem eu questiono é o “professor”, o juiz, que permitiu o desenrolar de tal “experimento” numa coisa tão séria como um processo penal.

E vejam que não posso conceder ao ilustre magistrado Raimundo Moisés Flexa sequer o benefício da dúvida, porque isso seria demasiado ofensivo – a ele e a nós, sociedade.

Afinal, qualquer marqueteiro “rasca” e qualquer rábula sabem que as emoções são “trabalhadas” pelo sistema límbico, a área mais primitiva do cérebro humano. E que, contra o predomínio da emoção, não há razão possível.

O exemplo clássico é o predomínio da emoção hitlerista sobre a Nação alemã. E as exceções que ali restaram não passam disto: exceções.

Além do que, todo e qualquer rábula também conhece, de cor e salteado, uma coisa chamada “falácia” e, dentre aquelas existentes nessa larga família de “pensamentos truncados”, uma falácia poderosíssima chamada de “apelo à piedade”.

Ao permitir a exibição daquele filme o ilustre magistrado – inconsciente ou conscientemente – permitiu – e, portanto, se acumpliciou – um processo de “satanização” dos réus. Como que pré-julgou – se assim me permite dizer o ilustre – e ainda permitiu pré-julgar...

Na minha humilde opinião de cidadã negou aí, aos réus, toda e qualquer chance de defesa, ou seja, o devido processo legal.

Pois, que permitiu, através de um silêncio acachapante, que, nos senhores jurados, com razoável grau de certeza, tendo em vista todos os experimentos psicológicos nesse sentido, a emoção passasse a imperar.

E que passassem os senhores jurados, portanto, a estarem movidos, apenas, pela empatia que os sobrepujava.

Sem condições, portanto, a partir desse momento, de “ver”, realmente, as provas técnicas e os depoimentos existentes naquele processo, que deveriam embasar, de fato, a importante decisão social que tomariam.

Ora, daquele filme surgiram as vítimas como verdadeiros titãs de alguns dos papéis mais caros à sociedade.

Eram pais e filhos amantíssimos – e, “por conexão” - maridos, amigos, amorosos; enfim, cidadãos exemplares; “pacatíssimos” seres humanos...

Surgiram, enfim, gigantescos, em relação à pequenez da “bandidagem”...

Afinal, como sabe todo e qualquer rábula – e daí não acreditar que um douto magistrado não o saiba – a mente humana funciona, justamente, nesse tatibitati maniqueísta, que, por geral e persistente, talvez tenha até alguma função biológica...

Ora, esse filme tornou extremamente sensível e solidária às vítimas, num grau muito maior que o recomendável, a totalidade do tribunal.

E a impressão que ficava a quem tentava “racionalizar” tudo isso era a de estar diante de uma turba que, ao mínimo sinal, se mostraria disposta a “justiçar” os acusados.

Ora, júri e juiz não são pagos para ser, simplesmente, solidários às vítimas. A solidariedade social já está expressa na própria estrutura judiciária, com suas leis e tribunais.

Júri e juiz não são pagos para chorar, se descabelar, tomar partido, consuetudinariamente falando.

A eles compete seguir o rigor da lei, ao cobrar a dívida social de um cidadão e pagar, a outro cidadão, o que lhe deve a sociedade.

E isso implica, necessariamente, o predomínio da razão. A capacidade de ver, de fato, se, num dado processo, numa dada denúncia, se apresentam todas as condições exigidas pela lei, por essa criação societária, para a absolvição ou condenação.

Óbvio que tal se torna impossível, quando se permite que o tribunal se transforme em mera reunião de acionistas da Kleenex. Ou, o que é pior, em catarse de torquemadas.

Vence a vaidade, a imagem histórica do magistrado que atuou no processo, com as atas que raramente revelam todos os meandros processuais.

Perde, fragorosamente, a civilização e a sociedade que sustenta o douto juiz.


II


O julgamento do Caso Novelino é um tapa na cara da sociedade paraense, também, por toda a riqueza que o cercou.

Se me permitem os doutos magistrados do TJE e até os doutos promotores – alguns dos quais tenho como amigos, pessoas de quem realmente gosto – tal processo é até uma afronta ao princípio da isonomia.

No ano passado, se bem me recordo, no início do ano passado, duas garotinhas foram assassinadas, barbaramente, em Ananindeua.

Elas não tinham 1,90 metros de altura, nem considerável largura.

Ou um histórico de ataque e defesa a deixar muita gente de cabelo em pé.

Eram criancinhas, tão somente criancinhas... Duplamente protegidas pelo Estado, dado o Estatuto da Criança e Adolescência (ECA).

E, no entanto, o que foi feito do processo que apura os assassinatos dessas crianças?

Que é feito dos processos que apuram as mortes de tantos e tantos cidadãos anônimos, pobres, pretos, semi-analfabetos, mas, igualmente cidadãos?

Lembro de ter ficado a olhar os “manifestantes” do Caso Novelino.

Sim, senhor, isso é que eram manifestantes!...

Muitos deles louros, de pele clara, robustos, bem vestidos, com pulseiras de meio quilo nos braços.

Armaram tendas assépticas, na praça em frente ao tribunal; dentro, tinham pizza e refrigerante, para matar a sede a fome.

Tinham até ônibus para levar os mais pobres, que alguns até chamariam de massa de manobra...

E eu pensei: quem dera que, um dia, todos os manifestantes sejam assim...

Talvez que a justiça ande tão rápida, tão “flash” quanto andou nesse processo.

Talvez que tantos cidadãos, que hoje amargam a dor da espera dessa Justiça parida de um cágado, dessa Justiça-Jabuti, dessa Justiça tão brasileira, tão desigual, possam, quem sabe, antes de morrer, receber o pagamento daquilo que lhes devemos...

Todos os dias, centenas, milhares de cidadãos morrem na periferia das grandes cidades.

A muitos, se reza a missa de sétimo dia, sem que se tenha encontrado o corpo.

A muitos se sepulta na memória, sem que os culpados por esses crimes sejam chamados a responder pela dor que causaram.

É engraçado. No julgamento do Caso Novelino ouvi alguém a tentar justificar a celeridade desse processo pelo “trauma” que esses assassinatos causaram à sociedade.

Que, como naquele caso dos Riechfstal, ou sei lá como se escreve, mas, daquela moça que assassinou os pais, apesar de “bem nascida”, tivesse o condão de provocar altas incursões filosóficas na burguesíssima classe média.

Foi assim: um advogado contou que, depois dos assassinatos dos pais, por aquela moça, bacana, loura e rica, um cliente passou até a fechar a porta do quarto em que dormia, desconfiado que ficou.
Ora, tal sobressalto, em relação a todos, é comum na periferia – ou o desconhece o douto advogado?

Na periferia das nossas urbes até o botequim tem grades...

Há muito, inexistem amigos, familiares; há muito que a nossa gente sobrevive porque Deus – e não o Estado – permite sobreviver.

A classe média é um bicho, de fato, curioso.

Pega um caso que lhe diz respeito e faz dele a invenção da roda, o despertar do mundo.

E logo a classe média, que, apesar de toda a informação e do poder que detém como que “abona” esse estado de coisas...

E eu fico pensando na dor dos pais, dos familiares, dos amigos daquelas menininhas, estupradas e mortas num terreno baldio, em Ananindeua...

Vocês não gostam tanto de emoção? Pois, elas não foram nem algemadas, nem amordaçadas, porque, simplesmente, não precisava: elas nem por sombra representavam uma ameaça. Por natureza, eram inermes.

Mas, até hoje, não sei que fim levou o processo delas.

Ou daquele pai que chorou sobre o corpo de um filho jovem, morto na Cremação.

Ou de qualquer outro pobre sem identidade – sim, porque nesta sociedade em que vivemos, ser pobre significa, também, ser sem identidade.

São milhares, milhões de rostos negros e morenos, caboclos, que, muitas vezes, nem podem entrar no Palácio da Justiça.

Hoje, aliás, até eu quase que fui barrada, por um oficial PM que, incrivelmente, não conhecia.

Mas, eu sei me defender. Tive o “privilégio” à Educação, num país em que pouquíssimos têm esse “privilégio”...

Mas, infelizmente, neste país escravocrata, nem a dona Maria, nem o seu José sabem se defender...


III


Por último – por hoje, é claro - causou-me espécie o “carão” público do meritíssimo Raimundo Moisés Flexa ao advogado Djalma Farias.

Tudo porque Djalma disse, em entrevista ao Diário, que esse processo, justamente, era uma casa da mãe Joana, um saco de gatos – e eu assino embaixo das declarações dele, Dr. Flexa.

Estranhei a maneira incisiva como o douto Raimundo Moisés Flexa se dirigiu ao Dr. Djalma, de longe o melhor advogado daquele tribunal.

Apesar do vocabulário ultrapassado, datado, frente a um jovem e turbinado Lauria; como um Francisco Alves frente a um Roberto Carlos, Djalma, mesmo assim, conseguiu ser instigante, ao revelar a fragilidade até da perícia técnica, ao localizar na base da coluna um osso, que na realidade, se situa no pescoço; ao não encontrar nos cadáveres marcas clássicas de asfixia – e mesmo assim determinar que as mortes dos Novelino se deram por asfixia.

Volto a isso amanhã, se der, porque já bebi um pouco a mais, estou cansada e preciso dormir.

Mas, a mim pareceu “inconsistente” o comportamento do douto magistrado.

Afinal, abraçou e conversou, docemente, com os pais das vítimas – como se fosse pago para isso, por nós; como se fosse justo um juiz se dar assim com quem, por tantas “insinuações” deveria era investigar – ao passo que, a um homem de mais de 70 anos, com mais de 30 anos de advocacia, como Djalma, preferiu passar um carão.

Não nutro qualquer simpatia por Djalma Farias – muito pelo contrário; nos confrontamos, se ele não se lembra, eu me lembro, no processo dos padres franceses.

Ele havia sido contratado, como dizíamos, pela ditadura, para jogar os posseiros contra os padres; eu, era do PRC e o criticava até não mais poder.

Mas, hoje, causou-me revolta a covardia – sim, meritíssimo – a covardia de ofendê-lo no “seu” tribunal sem chances de defesa.

Se eu fosse da OAB, o senhor, certamente, meritíssimo, estaria perdido.

Porque eu iria aos confins do inferno para lhe obrigar, excelência, a respeitar um princípio básico do Direito, que é o direito de defesa, que todo rábula conhece, aliás.

Vossa Excelência, se é permitido a um mero cidadão dizer tal, vossa excelência abusou do poder que lhe foi socialmente concedido.

O Tribunal não é seu, excelência – é da sociedade.

E nele inexiste hierarquia entre Vossa Excelência e as Vossas Excelências que são o Ministério Público e os advogados de defesa.

Todos são partes legítimas e necessárias do processo legal.

Se Vossa Excelência não gostou das declarações do Dr. Djalma Farias à imprensa, deveria tê-lo contestado na imprensa.

E não esperado, covardemente, data vênia, estar placidamente sentado na cadeira de juiz do “seu” tribunal, para fazê-lo.

Sinceramente, como cidadã, senti vergonha pelo senhor.

Afinal, não trombeteio o respeito aos costumes sociais, como o senhor trombeteia.

Não me faço os elogios que o senhor se faz.

Mas, aprendi, desde pequena, a respeitar os mais velhos. A ter pelos mais velhos uma deferência imensa, por tudo o que podem nos ensinar.

Ao Dr. Djalma – e a mulher a à filha dele que estavam naquele tribunal, no “seu” tribunal – deixo, aqui, a minha solidariedade.

Quem dera que o senhor tivesse tido em relação a ele metade da deferência que teve, sabe-se lá por que, em relação aos Novelino...

terça-feira, 20 de novembro de 2007

julgamento1



A Quimera Oculta



A grande sensação do primeiro dia do julgamento dos acusados de participar dos assassinatos dos irmãos Novelino foram as “revelações” acerca de um esquema de “caixa dois”, para financiamento de campanhas eleitorais, capitaneado pelo empresário João Batista Ferreira Bastos, o Chico Ferreira, mandante confesso dos crimes.

Um esquema que envolveria os gêmeos da política brasileira, PT e PSDB, e que contaria com a participação de dois supostos sócios de Ferreira: Marcelo Gabriel, filho do ex-governador Almir Gabriel, e Carlos Maurício Carpes Ettinger, dono da Clean Service.

Os três, de acordo com denúncia do Ministério Público Federal, pela qual respondem à ação penal, integrantes de uma quadrilha especializada em fraudes licitatórias e previdenciárias.

Falaram sobre o esquema ilegal de financiamento de campanhas eleitorais tanto os mandantes confessos, Chico Ferreira e o radialista Luiz Araújo, quanto um dos executores confesso dos irmãos, o ex-policial civil Sebastião Cardias.

Embora aparentemente divididos, nas estratégias de defesa para tentar atenuar as pesadíssimas sentenças que poderão receber, os três foram unânimes em afirmar que os R$ 4 milhões devidos por Chico Ferreira aos Novelino tiveram origem em recursos carreados para o financiamento de campanhas eleitorais.

Incisivo, o radialista Luiz Araújo não apenas apontou dois operadores desse esquema – o deputado federal Paulo Rocha e o secretário de Transportes, Waldir Ganzer, ambos do PT.

Mas, assim como quem não quer nada, até fez ver a familiaridade de Paulo Rocha com Chico Ferreira: uma irmã do deputado seria namorada de Helder Barbosa da Nóbrega, ex-gerente da Service Brasil e “laranja” de Chico em várias das empresas pertencentes a ele e a outros “sócios ocultos”, conforme apurou a Polícia Federal.

Araújo, que disse atuar como lobista, contou que apresentou Paulo Rocha e Waldir Ganzer a Chico Ferreira e que os três passaram a trabalhar juntos, nesse esquema, desde 2004. E disse que também apresentou a Chico o ex-prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues e o falecido desembargador Geraldo Lima, ex-secretário municipal de Belém, na gestão petista.

Araújo falou, ainda, sobre a proximidade entre os Novelino e Chico Ferreira, antes dos crimes. Disse que outras empresas de Chico ficavam em salas existentes em um posto de gasolina, localizado na 28 de Setembro, de propriedade dos irmãos. E Chico, por sua vez, disse que pretendia abrir uma empresa de empréstimos junto com eles.

Ou seja, cada qual a seu modo – Araújo, Cardias e Chico – apenas levantou a pontinha do véu de uma história que pode ser até mais escabrosa, do ponto de vista social, que os assassinatos dos irmãos Novelino.

Por que resolveram agir assim é uma incógnita. Mas, ao que parece, puseram-se a disparar recados, a quem interessar possa, acerca da alta periculosidade que poderão representar, caso sejam deixados sozinhos a enfrentar os leões.

Alguém já disse, aliás, que se Chico Ferreira resolver, de fato, abrir o bico, não sofrerá pedra sobre pedra na sociedade paraense.

Ele, simplesmente, levará junto, para o quinto dos infernos, políticos, servidores públicos, graúdos empresários e até alguns dos mais sonantes advogados e juízes que o Pará possui.

É possível que Luiz Araújo também conheça um bocado dessa história sórdida. Afinal, foram vários anos de bons serviços ao “magister”, até como testa de ferro.

Custa a crer, porém, que o mesmo possa ser dito acerca de Sebastião Cardias, que parece um oficial de mais baixa patente. Não deixa de ser curioso, porém, que a banquinha que possuiu, no centro comercial de Belém, estivesse ligada a um dos maiores grupos de jogo do bicho – o JB.

E que Chico Ferreira, nos áureos tempos em que era conhecido como “o Rei”, segundo o relato de quem lhe foi próximo, adorasse passar uns tempos a pescar, placidamente, em São João de Pirabas...

Outro detalhe interessante é que, no depoimento ao promotor Paulo Godinho, em 23 de outubro, Cardias também falou sobre um suposto envolvimento dos Novelino com a pistolagem, roubo de carros e adulteração de combustíveis.

Além disso, é preciso juntar a esses ingredientes as relações que Chico Ferreira possuía com uma certa igreja evangélica. E o fato de que teria até inaugurado um “templo” desses, em Belém, conforme uma fonte da Service Brasil – e algumas denominações religiosas, como se sabe, dão excelentes “lavanderias” financeiras.

Quer dizer, só a pontinha do véu já permite vislumbrar um leque de crimes: financiamento ilegal de campanhas eleitorais, por gente ligada a fraudes licitatórias e previdenciárias, que mantinha excelentes relações com suspeitos de pistolagem, roubo de carros e adulteração de combustíveis e com banquinha de jogo do bicho ligada a um dos maiores grupos paraenses do setor. Tudo temperado pelo possível “branqueamento” em nome de Deus...

Ou seja, a nós, cidadãos, resta, apenas, indagar: que monstro, afinal, se oculta debaixo desse véu?

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Temporários


Sobre os temporários



Essa história dos temporários é pra lá de complexa.

Por mais que sejamos tentados a apoiar essas pessoas, pais e mães de família, o fato é a ilegalidade da ocupação desses cargos, a partir de 1988, sem o necessário concurso público.

Lembro que uma das argumentações jurídicas, em desfavor dos temporários, é justamente essa: não há como alegar ignorância.

Porque teria havido, na verdade, uma conjugação de vontades, entre quem nomeou e o nomeado, para burlar a Lei.

É certo que muitos deles são cidadãos humildes, que nem sabem por onde passa o andor da Santa.

Receberam uma recompensa, um prêmio, por votar em sicrano ou beltrano, nesse toma-lá-dá-cá que sempre foi a política brasileira.

Mas, com o tempo decorrido - dez, quinze anos - é difícil de acreditar que não tivessem tomado conhecimento da precariedade da situação que usufruíam.

É preciso sanear o serviço público brasileiro, como primeiro passo para quebrar esse “cabidismo” de emprego em que se transformou; essa apropriação do Estado, da máquina que tem de ser pública, por famiglias ou legendas partidárias.

Servidor público tem de ser concursado, de carreira, para ter maior possibilidade de agir em favor de quem lhe paga o salário – a sociedade.

Não pode ser, simplesmente, a mulher do fulano, a prima do beltrano, o passeador de cachorro do imperador de plantão.

Tem de ter segurança, possibilidade de se negar a atuar contra os interesses coletivos - e de denunciar quem o faz.

Quem vive na situação periclitante de não-concursado, vive do favor desse ou daquele partido, desse ou daquele “senhor”. Tem, muitas vezes, de ver, ouvir e calar.

Não pode exercitar, plenamente, a cidadania que todos esperamos dele, quando nós, sociedade, lhe possibilitamos o acesso à tão nobre função.

Tal insegurança é ruim para ele, é ruim para nós.

Só a partir da efetivação por concurso é que poderemos, quem sabe, enterrar a triste história do serviço público brasileiro, construído em benefício das famílias nobres de além-mar e da “nobreza” que se ia estabelecendo por aqui.

O próximo passo é criar carreiras com efetiva progressão salarial e funcional, quer dizer, de fato chamativas.

Para atrair, ao serviço público, os melhores, os mais bem preparados dentre nós, como acontece no mundo civilizado.

Afinal, a nossa expectativa é a de que os que cuidam do que pertence a todos tenham, de fato, os olhos mais aguçados. Que eles sejam a nossa voz, lá onde nós, muitas vezes, passamos batidos.

Uma excelente proposta, como já vem sendo discutido e efetivado, aliás, é que a fatia do leão dos DAS e de outros cargos comissionados pertença a servidores efetivos.

Que aqueles que elegemos, por períodos tão efêmeros, disponham de um mínimo de possibilidade de nomeações, ao mesmo tempo em que os “nossos” técnicos, os servidores que nós, sociedade, efetivamos, possam crescer aqui e ali, em conhecimentos, em ganhos, em jogo de cintura...

Talvez assim – Deus queira! – os nossos políticos passem a escolher com mais cuidado aqueles que nomeiam, puxando dinheiro do próprio bolso sempre que tiverem de pagar a pensão da mulher e da amante ou o salário da empregada que lhes serve, em casa, o cafezinho.

Para mim, a questão realmente problemática é a condição de “senhor de escravos” do Estado brasileiro.

Essas pessoas são trabalhadoras - e deveriam ser respeitadas como tal.

Deveriam ter direito não apenas ao FTGS, como já lhes garantiu a Justiça do Trabalho, mas a férias, 13 e a tudo o que recebem os trabalhadores regidos pela CLT.

Não deveriam ser, simplesmente, jogadas no limbo.

Além disso, há a situação de quem as nomeou; dos ordenadores de despesa.

Esses coitados que estão sendo mandados para casa, arcarão com o pato, enquanto que os políticos que os nomearam, que torraram dinheiro público numa ilegalidade fisiológica, de compadrio, continuarão serelepes, como se nada dissesse respeito a eles.

Mas, se os nomeados pagarão o pato, nada mais justo que esses políticos fossem obrigados a pagar, ao menos, o tucupi, a pimenta, a farinha e o jambu...

Talvez assim aprendessem que o buraco da sociedade brasileira, hoje, é muitíssimo mais embaixo...


Um adendo


Escrevi o texto acima há uns dias, mas acabei não postando por vários motivos: primeiro, a dificuldade de conexão daquele dia; depois, a dificuldade de dar uma escapadinha ao blog, entre tantos afazeres cotidianos.

Nesse meio tempo, aconteceram algumas coisas importantes, como uma excrescência em forma de projeto, parido no submundo da politicagem legislativa.

Óbvio que o que se pretende, com tal projeto e liminares e outros recursos protelatórios é, tão somente, “rolar com a barriga” a inescapável demissão dos temporários, visto que não possuem qualquer amparo legal.

Resta saber como ficará a situação de milhares de concursados, já aprovados ou que ainda serão, nos vários concursos em andamento.

Terão de esperar anos a fio pelo tão sonhado emprego, após tanta luta, tanto esforço, porque o cargo que lhes pertence permanece indevidamente ocupado por não-concursados?

Com a palavra o Ministério Público, cuja obrigação – e até a própria razão de ser – é a defesa da Lei, da Constituição.

domingo, 11 de novembro de 2007

Os pingos

Os pingos nos is



Jamais me colocaria contra um governo que ajudei a gestar.

Isso seria declaração de incapacidade, de incompetência. E quem anda, há tanto tempo, na política, não pode se dar a tais “desfrutes”: a condição de formar opinião implica, necessariamente, antevisão.

Ao mesmo tempo, não abro mão da minha “essência” tucana. Afinal, como diz aquela música belíssima, dos Rappa, “paz sem voz, não é paz, é medo”.

Creio que chegamos até aqui por um aglomerado de vontades, que se insurgiam contra o que estava posto no Estado: a imoralidade no trato da coisa pública; a hipocrisia das “vestais” que satanizavam deus e o mundo, mas que abençoavam o enraizamento do crime organizado na máquina pública ; a continuidade de um poder que corrompia as instituições; a destrutividade de quem não consegue ver a política como um jogo entre adversários eventuais, mas como um verdadeiro auto de fé...

Creio, ainda hoje, que nos insurgimos em prol da decência, da liberdade e do respeito ao outro – pois, que todos temos defeitos, afinal. Nenhum de nós é a Pureza ou a Bondade, ou puros ou bons.

Mas, nenhum de nós, com um neurônio a mais, aceitará que o outro, com iguais imperfeições, se pretenda um deus.

Isso fica para os imbecis. Mas, graças a Deus, nenhum de nós, que sobrevive nesta grande arena que é a política, padece de tal doença.

No entanto, creio que precisamos acertar as passadas.

É certo que não faz nem um ano que estamos a comandar o Estado – um Estado que encontramos do jeito que encontramos, aliás.

Encantado pela propaganda enganosa que o fazia se sentir um príncipe, quando é, na realidade, um mendigo.

Um Estado que, para manter-se no propagandístico equilíbrio da Lei de Responsabilidade Fiscal, não podia investir em nada de real interesse da sociedade, como é o caso da Saúde, da Educação e da Segurança.

Um Estado que nos deixou como herança a necessidade de pagarmos dívidas e mais dívidas de uns dinheiros que engordaram uns poucos, enquanto o nosso povo morre nas ruas, a doenças, à fome, à bala.

Mas, ainda assim, precisamos acertar as passadas.

Vencemos as eleições, o PT, o PMDB, os tucanos e os esquerdistas desiludidos, e os independentes.

Mas, para que isso não se transforme numa vitória de Pirro, é preciso que o PT e o PMDB – ou seja, a nossa linha de frente – aprendam a conviver e a comandar.

Isso não é exatamente um encontro de namorados, numa pracinha aconchegante, com um banquinho bacana e um lampião que só ilumina o que se quer.

É uma aliança política. Com todos os senões e desvãos de uma aliança política.

O PT precisa compreender isso. E o PMDB também.

Do contrário, continuarão falando merda e dando munição ao adversário.

É certo que, talvez, não estejamos na companhia de quem, realmente, gostaríamos.

É certo que algumas práticas, ou algumas não-práticas, nos deixam e deixarão de cabelo em pé.

É certo que não conseguiremos, jamais, entender, realmente, como pensa essa pessoa que está ao nosso lado.

E essa estranheza, por mais que não consigamos entender agora, é uma profunda aprendizagem...

Mas, neste momento, precisamos atiçar a capacidade de conviver.

Precisamos juntar a cachaça e o vinho; a feijoada e o caviar.

E é isso que, de certa forma, embatuca: nenhum de nós está, exatamente, para o champagne; somos todos farofeiros.

Então, qual a dificuldade?

O PT precisa aprender a ceder; o PMDB, a compreender o custo dessa cessão.

É um acordo, uma aliança eventual. E ponto.

Não significa que estaremos todos juntos, lá na frente...

Sim, vou consentir: temos de conviver, o que implica, até certo ponto, confiança, respeito, mútuo. E até estimar, gostar, que isso é profundamente humano.

Mas, o fato, é que não estamos aqui para confiar, gostar, etc e tal.

Podemos respeitar – e isso é o que se exige de qualquer jogo.

Mas, jamais, poderemos “estimar” e transformar o outro num parceiro permanente.

Querermos que o outro veja o mundo pelos nossos olhos...

É custosa essa convivência, como são custosas todas as convivências do mundo.

O PT tem um compromisso, o PMDB tem outro. E é isso que temos de compreender.

Se compreendermos isso, conviveremos bem, da base ao topo.

Aprenderemos a negociar desde as pequenas coisas – como a cadeira para sentar ou a tabuleta na mesa do chefe – até às grandes, que dizem respeito à sociedade.

Não casamos. Fizemos uma aliança política.

Isso implica que o parceiro, por mais descabelado que se apresente, seja sempre, publicamente, um ser extraordinário, inigualável, maravilhoso...

domingo, 4 de novembro de 2007

1998

In Memoriam de 1998


De há muito que tenho vontade de publicar a música abaixo.

Mas, sempre me cerceei.

Pareceu-me maldito, de mau-gosto, sei lá...

O problema é que essa música me lembra de um tempo em que acreditávamos em tanta coisa...

Talvez, um tempo de inocência, não só para mim, mas, para muita gente...

Para a ala mais radical do tucanato...

Aquela que sua a camisa, de fato, por um novo Pará.

Aquela que vê na honestidade e na ética, não um favor, mas, uma obrigação, para com tudo o que existe, especialmente a coisa pública.

A todos os que esperam – e fazem acontecer!...

A todos os que arriscam tudo por uma vida melhor para a nossa gente!

Diretamente desse longo e tenebroso exílio, deixo a vocês, queridos (meus companheiros!...), uma lembrança porreta...

Para, ainda uma vez, estarmos juntos...

Nem que seja por um brevíssimo momento...


O Mundo Místico dos Caruanas...


Beija-flor
E o mundo místico dos Caruanas
Nas águas do Patu-Anu
Mostra a força do teu samba

Contam que no início do mundo
Somente água existia aqui
Assim surgiu o girador, ser criador
Das sete cidades governadas por Auí
Em sua curiosidade, aliada à coragem
Com seu povo ao fundo foi tragado
O que lá existia aflorou, o criador semeou
Surgindo os seres viventes em geral
E de Auí se deu a flora, fauna e mineral

Sou Caruana eu sou
Patu-Anu nasceu do girador, obá
Eu trago a paz, sabedoria e proteção
Curar o mundo é minha missão

Pajé, a pajelança está formada
Eu vou na barca encantada
Anhangá representa o mal
Evoque a energia de Auí
Pra vida sempre existir
Oferenda ao mar pra isentar a dor
Com a proteção dos caruanas Beija-flor
A pajelança hoje é cabocla
Na Ilha de Marajó, vou dançar o carimbó
Lundu e siriá, marujada e vaquejada
Minha escola vem mostrar
O folclore que encanta
O estado do Pará

(Alencar De Oliveira, Wilsinho Paz, Noel Costa, Baby)

Chuá...

Chuá Chuá


Deixa a cidade, formosa morena
Linda pequena, volta ao sertão
Beber a água da fonte que canta
Que se levanta do meio do chão

Se tu nasceste cabocla cheirosa
Cheirando a rosa no peito da terra
Volta pra vida serena da roça
Daquela palhoça no alto da serra

E a fonte a cantar: chuá, chuá
E a água a correr: chuê, chuê
Parece que alguém que cheio de mágoa
Deixasse, quem há de dizer, a saudade
No meio das águas rolando também

A lua branca de luz prateada
Faz a jornada no alto do céu
Como se fosse uma sombra altaneira
Da cachoeira, fazendo escarcéu

Quando essa luz na altura distante
Loira ofegante no poente a cair
Dá-me essa trova que o pinho descerra
Que eu volto pra serra que eu quero partir

(Pedro Sá Pereira e Ary Pavão)

As gentes

As gentes



Há gente que adora rir dos sentimentos alheios. Com uma leveza que nos deixa a pensar se tais pessoas conseguiram sentir, de fato, alguma coisa na vida.

Algumas pessoas rifam tanto a alma, o coração, para “se dar bem”, para “subir na vida”, para “ter ibope”, para “fazer sucesso” que parecem invejar, profundamente, quem preserva a capacidade de sentir.

É como se odiassem quem não se rende a essa luta besta por coisas efêmeras, que o tempo se encarrega de apagar...

Precisam escarrar no rosto de quem sente, até por uma questão de sobrevivência.

E não é, apenas, por bens materiais – embora pensem que é.

É porque se contentam com uma existência parasitária. E só.

A gente é o que é. Cada qual, portanto, com a sua dor.

Quem não encontra sentido na própria vida, que o procure. Que mude de estrada, de rumo. Que ouse. Ou, que aprenda a conviver com os próprios demônios.

Mas, que largue a vida dos outros, que deixe aos outros em paz.

Não é a tentar controlar a vida alheia que se tornarão melhores. Porque, melhores, jamais serão.

Nasceram e morrerão pútridos. Porque é da essência deles essa podridão.

Precisam disso para ter o que falar – em casa, nos bares, no restaurante, no cinema.

Porque, sem isso, seriam, apenas, um eterno e doloroso silêncio...

Pessoas vivem, sentem, riem, choram, sonham, amam...

Mas, essas coisas não têm, simplesmente, capacidade para nada disso.

Comem o pão sem gosto, engolem a bebida, trepam com cartão de ponto.

Que sigam assim, se é isso que pretendem ou se acham que é só para isso que servem.

Que se consumam na própria amargura.

Mas que, ao menos, não tentem infectar todo o resto do mundo com essa miséria que carregam.


P.S: Passo recibo e assino embaixo, com firma reconhecida e tudo... E aí?... Vou ao foda-se... Sempre estou pronta e disposta a ir ao foda-se... Mas, há mais alguém aí disposto a ir, também, ao foda-se?...

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Luísa

Luísa


O vinho não consolou. Fazia tempo que se assemelhava às lágrimas que escorriam do coração. O vermelho intenso, o perfume das lembranças escondidas. O calor que se lançava nas veias, mas que se perdia nas geleiras da alma.


Luísa sentou-se na cadeira de balanço, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá...

Da janela podia contemplar as árvores desfolhadas pelo Outono. Lisboa imersa em neblina... Os suspiros vindos dos lados da Mouraria. E a noite a arrancar à Severa todos os fados do mundo...

Lá longe, tão distante, era o Tejo. O verde vivo que se rendera à escuridão. E a lua a esmaecer sozinha, entre as estrelas que cintilavam no céu.

Na parede, o relógio marcava uma da manhã – por onde andaria Luís?

Não, ele não voltaria...

Havia meses que se fora, a outros braços, a outros mundos.

Qual um navegante que insistisse em desbravar outras terras – sempre além, sempre além...

Ele a amara, ou amara sozinha?

Mas, o amara, de fato? Ou quisera dele somente os beijos que lhe acendiam o corpo?

As mãos, os braços, as pernas que transformavam o desejo em suor?

Não, Luís tinha de ser o amor de sua vida, precisava ser.

Precisava, desesperadamente, dessa lembrança, desse fio de humanidade.

Precisava olhar o relógio e lembrar-se dele. Precisava de alguém, ao menos, para lembrar.

Precisava de um sentimento, de alguma coisa inexplicável, maior...O rio que só é rio pela certeza do mar...

Ah, as histórias que se contavam sobre o amor!...

A voz, o hálito de Tisbe, na fenda que reunia os amantes...As águas que carregavam o perfume de Isolda...A fonte a murmurar o lamento de Inês...

O olhar que traduz todas as palavras do mundo, num mero olhar...

A revelar, num lampejo, todo o mistério do Universo!...

A explosão da vida a repetir-se, infinitamente, em cada coração...

Em que corpo, em que mundo andaria Luís?

Lembrou-se da primeira vez em que se viram – quanto tempo passara, desde então?

Os olhos pousados nos olhos dele, enternecidos...Como o olhar do apaixonado à lembrança de sua paixão!...

Uns olhos que sorriam dela e que pareciam sorrir só para ela, entre todas as manhãs do mundo!...

Uns lábios que jorravam palavras incompreensíveis, um para o outro...E que nem importava compreender...

Pareceu-lhe que os pensamentos se enroscavam, um no outro, bem mais que as pernas, os cabelos e as mãos...

E que todo o resto – a vida, a morte, a felicidade, a infelicidade e as gentes (e toda a maledicência que carregam...) – se dissolvia na irrealidade em redor...

O que dera errado?

De onde viera o cansaço, a separar as bocas e o coração?

De onde nasceram as palavras, essas feridas tão profundas que nada poderia cicatrizar?

De onde viera esse frio a congelar o desejo que fluía, um do outro, às águas do mesmo mar?...

A cadeira pra lá e pra cá, pra lá e pra cá...

Tomou mais um gole de vinho. E sentiu o Outono a pesar-lhe nos ombros, a prenunciar o Inverno perene...

Viu passar um casal, as mãos enlaçadas, o riso solto. E quase que pôde sentir o sabor daquele beijo repentino, a envolver a neblina.

A ternura das almas que se dão no mesmo florescer...

Luís se fora, ela também se fora.

Foram-se, um do outro, como se pusessem um sonho a dormir...

Como as bocas que se calam, sem mais a dizer.

Ficaram a neblina, o vinho que não consola, a cadeira de balanço, o relógio na parede, as árvores cinzentas.

E essa escuridão a insistir-lhe no peito: é amor... Foi amor... Tinha de ser amor...


Belém, 21 de maio de 1998.