Ban

domingo, 31 de dezembro de 2006

A resposta necessária!


Habanera


L'amour est un oiseau rebelle
que nul ne peut apprivoiser
et c'est bien en vain qu'on l'appelle
s'il lui convient de refuser.

Rien n'y fait; menace ou prière,
l'un parle bien, l'autre se tait
et c'est l'autre que je préfère,
il n'a rien dit, mais il me plaît.

L'amour est enfant de Bohême,
il n'a jamais, jamais connu de loi;
si tu ne m'aimes pas, je t'aime;
si je t'aime, prends garde à toi...

L'oiseau que tu croyais surprendre
battit de l'aile et s'envola...
L'amour est loin, tu peux l'attendre
tu ne l'attends plus...il est là...

Tout autour de toi, vite, vite,
il vient, s'en va, puis il revient...

Tu crois le tenir, il t'évite;
tu crois l'éviter, il te tient.

L'amour est enfant de Bohême,
il n'a jamais connu de loi;
si tu ne m'aimes pas, je t'aime;
si je t'aime, prends garde à toi!...

(Bizet)





Não está pronto. Mas é mais ou menos isso.


Tudo o que é vai dar em ti.
Os mundos, os submundos, o universo que há.
A alma que suspira nas sombras.
O começo que se esconde em todo lugar.

E eu retorno aos teus braços, os braços em cruz.
O navegante à procura de um sinal dos céus.

Em ti, as pedras resplandecem.
Transbordam os átomos,
As folhas jamais envelhecem.

O que havia antes de ti?
E depois de ti o que haverá?

Se a voz que escuto é a tua,
se o cheiro que exalo é o teu,
Em que tempo, em que mundo te acharás?

E as muralhas havidas, são muralhas a derrotar.
A estrada que se estende ao peregrino,
O horizonte em que se oculta a face de Deus.

E eu vejo toda a vida como se fosse a tua.

Belém, 30 de dezembro de 2006.

domingo, 24 de dezembro de 2006

Feliz Natal!

Um Natal grandioso a vocês!

Pensei em colocar aqui White Christmas, Adeste Fidelis e tudo o mais. Até Tannhauser pintou, magnífico que é. E o Réquiem, do Mozart, num estilo bem down. O problema é que estou matutando bem mais longe: no suposto em mim. Por isso, leitores de longa data, desculpem se me repito. Mas é que gosto muitíssimo da música abaixo. É a minha cara – talvez, porque me “alembre”, recorrivelmente, de quem sou. Pena que não a compus - foi o Chico, como sempre. De qualquer forma, um feliz Natal a todos vocês! E até a próxima função!!!

Na Carreira

Pintar, vestir
Virar uma aguardente
Para a próxima função
Rezar, cuspir
Surgir repentinamente
Na frente do telão
Mais um dia, mais uma cidade
Pra se apaixonar
Querer casar
Pedir a mão

Saltar, sair
Partir pé ante pé
Antes do povo despertar
Pular, zunir
Como um furtivo amante
Antes do dia clarear
Apagar as pistas de que um dia
Ali já foi feliz
Criar raiz
E se arrancar

Hora de ir embora
Quando o corpo quer ficar
Toda alma de artista quer partir
Arte de deixar algum lugar
Quando não se tem pra onde ir

Chegar, sorrir
Mentir feito um mascate
Quando desce na estação
Parar, ouvir
Sentir que tatibitati
Que bate o coração
Mais um dia, mais uma cidade
Para enlouquecer
O bem-querer
O turbilhão

Bocas, quantas bocas
A cidade vai abrir
Pruma alma de artista se entregar
Palmas pro artista confundir
Pernas pro artista tropeçar

Voar, fugir
Como o rei dos ciganos
Quando junta os cobres seus
Chorar, ganir
Como o mais pobre dos pobres
Dos pobres dos plebeus
Ir deixando a pele em cada palco
E não olhar pra trás
E nem jamais
Jamais dizer
Adeus

(Chico Buarque e Edu Lobo)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Festa V

Festa no meu Apê V

Abrem-se as cortinas. No salão, estão os convidados – todos em cadeiras de rodas, inclusive a Perereca. Olham para o topo da escada (um hall, uns seis degraus acima). Lá se encontram a Beijoca (em cadeira de rodas), o lorde Sudão (vestido a Obi-Wan Kenobi) e o lorde Ki-Nem (de barba e óculos trotsquistas, mas vestido a Luke Skywalker). O DJ ataca “Guerra nas Estrelas”. De ambos os lados da escada, um coral vestido de anjos entoa:

_“Livre! Agora sou livre! Agora sou livre! Livre eu sou! Livre! Agora sou livre! Agora sou livre! Livre eu sou!”.

Súbito, aparece a correspondente, no meio do salão, que interrompe a entrada triunfal.

_Aparem aí, apodem pará, que vocês não vão entrá agora!
_Ué, ficou maluca, cumadizinha? Como é que você quer expulsar a Beijoca, o lorde Sudão e o lorde Ki-Nem? Tá querendo me ver na rua da amargura?
_Que nada, comadre! Aconfie no meu taco! (virando-se e caminhando na direção da escadaria). Avortem, avortem, que vocês só vão entrar no próximo ato! Até! Até! E alevem os anjos junto! E não empurre a cadeira com muita força, viu, lorde Sudão, que a Beijoca apode caí! Comadre, você nem imagina o que aconteceu!!!
_Imagino sim, animal! Acabo de perder o blog, o emprego e vou vender pupunha no Ver o Peso.
_Mas aooooonnnde! Você é que anda muito estressada, comadre!... Deve de ser a tal da menopausa, ué!...
_Menopausa é o *&^@#+%!
_Credo, comadre! Que palavrões tão feios você tem!
_É pra melhor te xingar, animal!
_Ô comadre, se acalme! Veja pelo lado positivo: assim, a gente acria mais suspense pros leitores!
_ E eu sou algum Conan Doyle, agora? Égua, só pode ser carma!!! Só pode, só pode!...
_Ô comadre, sabia que você fica muito bem de cadeira de rodas?
_(...)
_É sério, comadre! É a nova moda no Brejo! Esgotou tudo: não tem mais imobilizadô, cadeira, andadô...Muleta, então, nem se fala! É todo mundo querendo, comadre! E o conde de Eldorado licitando, licitando...Diz que já tem 20 cadeiras pra cada moradô do Brejo! Só o Barão é que continua, a bem dizê, “de pés”... Pra modo de empurrá a cadeira, quando o lorde Sudão cansá...
_É ‘mermo’!... Eu bem que vi o Barão, todo amável, acenando pra Beijoca...
_É um querubim ungido, comadre!...A imagem do desprendimento...
_Um São Francisco de Assis, perseguido pelas pombas do destino...
_Um esmoléu, comadre, um esmoléu...
_Acho até, cumadizinha, que a gente devia mandar construir uma estátua à humildade do Barão!...
_Com um dispositivo pra fazê: arru, arru...
_O Barão de Cadeados podia ser o grande arquiteto!...
_Vixe Maria, comadre! Aí vai ser o Gold-Kong. Aleva todo o orçamento do Brejo! Até tambor vai ser superfaturado!... E ainda sai correndo no meio da multidão!...
_Podia era dançar um xote, né, cumadizinha?
_Que nada, comadre, você ta é por fora! É valsa. É “Artist’s Life”, regada a Dom Perignon...
_Puxa! E eu pensando em açaí com jabá!...
_É porque você é pobre, comadre! E, pra mais, intelectual! Com uma adoração por esse tal de povo, de deixá urubu do Ver-o-Peso de pena em pé!...Se amire na Maria Antonieta, comadre! A gente aperde a cabeça, mas não aperde a pose!...
_Panis et circensis!
_Tá vendo? Lá vem você com língua morta! O negócio é o biquinho! Arrepita comigo: l’amour, toujour, abat-jour, abrecour!
_Ué, cumadizinha, você também fala francês?
_Oui! Aprendi com o Barão: Pompadú? Zulu. Manjei toa bocú!...
_Isso é João Bosco e Aldir Blanc, animal!
_Bem que adesconfiei que já tinha ouvido isso em algum lado!...
_Mas o que é que você ia me contar, que até expulsou a Beijoca e o lorde Sudão daqui?
_Pois, comadre, e não é que eu já ia me esquecendo...Pois não é que aprenderam o Príncipe Clean!...
_Não brinque, cumadizinha!!!...Mas por que, já?
_Transtorno Obsessivo Compulsivo, comadre!...
_Ué, como assim?
_Pois não é, comadre? O ômi não podia ver escola, que queria alimpá! E era rua, remédio, papel, o que viesse o Príncipe traçava. Aí o Sindicato das Mãos Limpas e da Cara Lavada deu queixa, ué!...
_Mas só por que o coitado sofria, a bem dizer, de excesso de limpeza?
_Mas, comadre, assim não sobra nada pra ninguém! Já pensou no resto dos Mãos Limpas? É concorrência desleal, comadre! O negócio é solidarinosc: migalhas para todos!
_E quando é que ele vai ser solto?
_Ah, já assortaro o ômi, comadre. To até aqui com uma foto dele, na Gazeta de Arribação. Olhe só!
_Égua, mas ele ta muito puto!...
_E com razão, comadre, e com razão!
_É... Encarar o xilindró deve ser barra!...
_Mas aoooooonde!... Ele não gostou foi da produção!
_Quê?!!!
_Pois, veja só, comadre! O Príncipe ta com uma camiseta rasca, um short brega e uma sandália que parece até a do Barão! Esqueceram de chamá o lorde Balloon, pra modo de ajeitá o Clean! Jogá uma pupurina ali, arranjá um smoking acolá! Assim, como é que vão chamá de colarinho branco? É uma vergonha pra catigoria!
_Puxa, coitado do Clean! O pai deposto e, agora, a prisão. Desse jeito, vai acabar “alimpando” a rua da amargura...
_Mas aooooooooonde! Diz que ele já até comprou uma carrada de aspiradô! Abandonô esse negócio de rodo, vassoura, paninho e balde, num sabe? Agora, é a limpeza do milênio! Com self service e tudo...!
_Ué, quer dizer, então, que a prisão dele vai dar em nada?
_E não é, comadre? Diz que o lorde Sombra, que é sócio dele – os dois são assim, ó, ó – tem a corte inteira na mão. Si abrí a boca, com alicença da palavra, avoa merda pra tudo que é lado!
_E a gente aqui, ralando neste blog, né, cumadizinha?
_Mas eu bem que lhe avisei, comadre: acompre uma basculante! Mas você não quis me ouvi...Ficou, aí, toda cheia de luvas...Mas, num si avexe não, que a gente vai abri uma indústria de água sanitária. Apere aí, que eu vô chamá um especialista. Ô seu Barão, ô seu Barão, achegue aqui!

Na cozinha

(O lorde Balloon está vestido a Darth Vader – tem grandes avisos, no peito e nas costas, com uma setinha indicativa de que é o Balloon. Pode-se colocar até um adesivo na testa da máscara, com a legenda “lorde Balloon” e uma setinha. O lorde Ki-Nem é meio Trotsky, meio Luke Skywalker. Está se empanturrando de salgadinhos, das bandejas colocadas em cima do grande balcão da pia. Toca a música do Darth Vader e o Balloon entra).

_Luke!
_Credo, cruz! Quer dizer, foice! Martelo!...Quem é você?!!!
_(Mas é mesmo um despreparado! Nem infância teve!) Vamos tentar de novo: DJ, BG, por favor!...Luke!
_Camarada! Você é um equivocado! Não sou esse tal de Luke! Eu sou o lorde Ki-Nem!
_Ó exílio, a quanto obrigas!... Mas será que esses neo marqueteiros já nem ensaiar, ensaiam? Cadê o seu script?
_Hem?
_Aquele papelzinho, com as suas falas...
_Ah, espere lá!...Eras, mano, será que eu usei como guardanapo?...Ah, não, ta aqui, ó! Eras, mano, mas ta todo borrado!...
_Por que é que você não tira esses óculos?
_Ah, é!...Eras, ficou bem melhor, mano! Ué, lorde Balloon, é você?
_Não!...Eu sou uma imagem virtual!...
_O que é a natureza!...O que a gente não faz, hoje em dia, com esses efeitos de computador!...Mas, deixa eu ver esse script!...Hum...Hum...Não, não...Aqui diz...Hum, hum...Não, não...Hum, hum...Não, não! Camarada!... Sinto lhe informar, mas não posso encenar isso!...
_E por quê?
_É propaganda de classe, camarada! Busca, claramente, iludir o povo! Quer reduzir a luta de classes a meras ilusões subjetivas, num discurso tipicamente burguês! É claro que esse tal de Darth Vader não passa de um grande capitalista! A máscara e a Estrela da Morte são – claramente - os tentáculos dos grandes conglomerados, nesta fase superior do capitalismo! O Darth Vader é a vanguarda dos interesses do capital! Não sofre qualquer angústia, camarada! E o filho dele não pode ser o herói do proletariado, porque tem interesses de classe - também! Temos é de pregar a revolução entre os operários da Estrela da Morte! Proletários do universo, uni-vos!
_Lorde Ki-Nem, isso está se tornando cansativo. Então, por que não fazemos o seguinte: vamos até um bar e socializamos o whisky. Aí, aproveitamos pra socializar um papo e o tira-gosto. Mas, para isso, temos de terminar, primeiro, a porcaria desta peça! Ou você vai querer que a platéia peça o dinheiro de volta? Aí, camarada, sinto informar, mas a dona Perereca não vai socializar o cachê!...
_E ela faz isso, camarada?
_É claro, camarada! Ela é uma típica representante burguesa! A vanguarda do capitalismo!...
_Então, camarada, pelo bem dos atores proletários e dessa nossa platéia proletária, é melhor socializarmos o script!...
_Com certeza, camarada! Camarada DJ! BG, por favor!... Luke!
_Daddy!

(Os dois se abraçam. As luzes mudam. O DJ ataca “Pai Herói”, do Fábio Junior. O Filho Pródigo canta: Pai, pode ser que daqui a algum tempo/
Haja tempo pra gente ser mais/ Muito mais que dois grandes amigos, pai e filho talvez/ Pai, pode ser que daí você sinta, qualquer coisa entre esses vinte ou trinta/ Longos anos em busca de paz..../Pai, pode crer, eu tô bem eu vou indo, tô tentando vivendo e pedindo/ Com loucura pra você renascer.../ Pai, eu não faço questão de ser tudo, só não quero e não vou ficar mudo/Pra falar de amor pra você/ Pai, me perdoa essa insegurança, é que eu não sou mais aquela criança/Que um dia morrendo de medo, nos teus braços você fez segredo/ Nos teus passos você foi mais eu/ Pai, você foi meu herói meu bandido, hoje é mais muito mais que um amigo/ Nem você nem ninguém tá sozinho, você faz parte desse caminho, que hoje eu sigo em paz !).
_Pai!!!
_Filhinho!!!

(Os dois se abraçam, novamente. As luzes se apagam. De volta à sala. Lá, estão o Inri de Indaial, vestido de drag queen (em pé, no meio), e umas dez crianças em cadeiras de rodas. Eles cantam e dançam (elas nas cadeiras, empurradas por outras pessoas) A Noviça Rebelde:

Let's start at the very beginning
A very good place to start
When you read you begin with A-B-C
When you sing you begin with do-re-mi

Do-re-mi, do-re-mi
The first three notes just happen to be
Do-re-mi, do-re-mi

Do-re-mi-fa-so-la-ti
(Let's see if I can make it easy)

Doe, a deer, a female deer
Ray, a drop of golden sun
Me, a name I call myself
Far, a long, long way to run
Sew, a needle pulling thread
La, a note to follow Sew
Tea, a drink with jam and bread
That will bring us back to Do (oh-oh-oh)

(Os dois juntos; depois só as crianças, como no filme)

Doe, a deer, a female deer
Ray, a drop of golden sun
Me, a name I call myself
Far, a long, long way to run
Sew, a needle pulling thread
La, a note to follow Sew
Tea, a drink with jam and bread
That will bring us back to Do

Do-re-mi-fa-so-la-ti-do
So, Do

(Continua)

sábado, 16 de dezembro de 2006

Nélio

Vamos boicotar
o blog do Barata!

Tenho imensas divergências com o Nélio – e ele sabe disso muito bem. Aliás, nem nos falar, falamos. Mas, garanto o direito de ele se manifestar nessa polêmica.

Por deferência ao Paulo, tentei tolerar o Nélio. Também sei que ele é marido de uma pessoa maravilhosa, a quem prezo muito - a Ritinha (Queridinha!) Mas, o fato, é que nossos espíritos nunca se cruzaram.

Entendo, porém, que o Nélio é um cidadão. Por isso, tem direito líquido e certo a manifestar opiniões. E fico-lhe grata, sinceramente, por escolher este espaço.

Sigamos conversando, debatendo, discutindo democraticamente. Racionalizemos o coração. Só assim, quem sabe, conseguiremos nos ver - e ao mundo – de forma mais equilibrada.

Obrigada, Nélio, pela sua importante participação neste debate. Até porque, a par das nossas divergências, reconheço em você um intelectual de fôlego:


“Tenho boas razões para somar meus comentários aos muitos que estão circulando contra o blog desse rapaz. Tenho bons motivos para engrossar a campanha contra o acesso ao blog do tal barata, o qual nunca visitei. E muito menos, agora, vou visitar.

Nunca fiz nada para esse rapaz; não lembro ter dito uma vírgula. Nem contra, nem a favor ao tal. Mas ele vive também me maltratando, segundo o que me contam, talvez só porque ocupo um cargo público.

Não me importo que me critiquem, mas não posso aceitar a ofensa, a humilhação e as acusações gratuitas.

O blog do tal barata é uma espécie de bate-pau de aluguel para os mais diversos interesses, onde se abrigam, também, desafetos que a gente nem sabe que existem, ou interesses políticos inconfessáveis. Barata (o bicho) presta-se para isso, para conduzir porcaria de um lado para o outro e contaminar tudo. Enfim, trabalho de inseto.

Maltratar o Paulo é mexer comigo também. Mais do que um companheiro de profissão, o Paulo é um irmão com quem firmei, sem palavras, um pacto de saudabilíssima convivência, fundada no que de mais sagrado pode construir uma sólida amizade: a ética.

Mais do que isso, minha relação com o Paulo é de irmão que permite o choro mútuo no ombro. Só a ética e a decência, a humildade e a sabedoria aprendidas na simplicidade da vida permitem isso.

Então, mexer com o Paulo Roberto Ferreira é mexer com o Nélio Palheta também. Principalmente porque no mesmo balde de maldades o tal barata inclui nós dois. Logo, sou a favor de uma campanha para que, pelo menos os jornalistas que se dão respeito, deixem de visitar esse blog.

Nélio Palheta"

In Memoriam

Luto de sanfoneiro



Diz que Gonzagão e Sivuca se encontraram no Céu. Rolou o maior arrasta-pé. Foi anjo dançando xote, baião. Flocos de nuvens, se alevantando ao infinito. Até São Pedro resfolegou no cangote de Santa Maria Carolina. E Jesus, cansado dessa cruz que é o mundo, gritou à sanfona e sanfoneiro: Fiat Forrus!

Aliás, diz que nunca se viu melhor forrozeiro que Jesus. Vai de par em par, dum lado a outro do salão. Ta raquítico. Não de sofrer, mas de dançar...

Bandeira largou de mão a sua Pasárgada, que era, a bem dizer, uma mosca morta. Juntou-se a Pessoa e foram baforar na tabacaria do beco. Aí compraram um retrato de Drumond. Que o retirara da parede, pra modo de pendurar uma sanfona. Oswald disse que era um gesto antropofágico. O Sardinha reclamou: quem entende de antropofagia sou eu, ó pá!...

Deram que faltava mulher. Aí chamaram a Tarsila, a Pagu, a Berta, a Clarice, a Clara, que chegou toda vestida de maré cheia... “Mulher não paga, mulher não paga!”, gritava Santo Agostinho. Até a Marília apareceu. Mesmo que suspirosa. E sem gostar de tais festanças.

Nós, cá embaixo, sofrendo à beça. Eles, lá em riba, se divertindo.
Vamos dançar! Luto de sanfoneiro é forró... E égua do forró arretado! Alevanta, defunto!!!!!!!!!!!!


Feira de Mangaio


Fumo de rolo arreio de cangalha
Eu tenho pra vender, quem quer comprar
Bolo de milho, broa e cocada
Eu tenho pra vender, quem quer comprar
Pé de moleque, alecrim, canela
Moleque sai daqui me deixa trabalhar
E Zé saiu correndo pra feira de pássaros
E foi pássaro voando em todo lugar

Tinha uma vendinha no canto da rua
Onde o mangaieiro ia se animar
Tomar uma bicada com lambu assado
E olhar pra Maria do Joá

Tinha uma vendinha no canto da rua
Onde o mangaiero ia se animar
Tomar uma bicada com lambu assado
E olhar pra Maria do Joá

Cabresto de cavalo e rabichola
Eu tenho pra vender, quem quer comprar
Farinha rapadura e graviola
Eu tenho pra vender, quem quer comprar
Pavio de candeeiro panela de barro
Menino vou me embora tenho que voltar
Xaxar o meu roçado que nem boi de carro
Alpargata de arrasto não quer me levar

Porque tem um sanfoneiro no canto da rua
Fazendo floreio pra gente dançar
Tem o Zefa de purcina fazendo renda
E o ronco do fole sem parar

Mas é que tem um sanfoneiro no canto da rua
Fazendo floreio pra gente dançar
Tem o Zefa de purcina fazendo renda
E o ronco do fole sem parar

(Sivuca/Glorinha Gadelha)

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Rosaly

Publico o recado que recebi via e-mail, sem possibilidade de publicação na janelinha. Um comentário importantíssimo, diga-se de passagem:


Caros amigos,

Apóio inteiramente a campanha contra o blog do Barata. Quem militou no sindicato dos jornalistas nos anos 80 conhece muito bem os métodos inescrupulosos deste senhor, que já deveria ter se rendido ao ostracismo a que a história lhe relegou.

Também reforço a idéia de que não devemos lê-lo - para que perder tempo com infâmias de quem não tem a mínima autoridade moral?

Quanto ao Paulo Roberto, este sim, tem autoridade moral, ética e profissional que lhes são conferidas pela sua trajetória impecável em defesa dos interesses maiores da sociedade.

Todo apoio ao Paulo e toda a indiferença a Augusto Barata.

Grande abraço,

Rosaly Brito

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Em defesa do jornalismo!

Vamos boicotar o
blog do Barata!



Assino embaixo da sugestão da Simone Romero. Acho que chegou a hora de reagirmos a esse Silas de Assis da blogosfera. Divulguem este manifesto. E vamos, também, fazer uma grande corrente de solidariedade ao Paulo Roberto, um dos jornalistas mais respeitados deste estado. Justamente, a antítese do editor do Jornal Popular dos blogs.


Caros,


Até agora vinha adotando a – cômoda - atitude de simplesmente acompanhar o desenrolar dos fatos ligados à sucessão governamental na mídia. Mas acho que chegou o momento de todos falarmos, porque a omissão também é um crime.

A troca de governo e todo o burburinho, falso e verdadeiro, que a envolve têm sido material farto para alimentar os blogs.

A dança de cadeiras também serviu para fazer aflorar o que há de pior na natureza humana. É triste ver no que se transformaram os blogs.

Depósitos de todo o tipo de acusações, veículos de concretização de vinganças pessoais, abrigo para toda espécie de covardes que se escondem no anonimato para destilar venenos e mentiras.

Para esses anônimos, ou não, deve ter algum valor chamar as pessoas do que quiserem. Talvez renda uma vaga no próximo governo. Talvez reduza a raiva de saber de sua própria incompetência para falar qualquer coisa que seja levada a sério.

Soube pelo manifesto da Ana Célia Pinheiro que o jornalista e, antes de qualquer coisa, meu amigo, Paulo Roberto Ferreira, foi caluniado no blog do senhor Barata.

Não sei o que ele escreveu, nem me interessa saber. Não corri para saber o que aquele senhor escreveu sobre meu amigo. Tenho ética, me valorizo. Meu tempo é precioso demais.

Simplesmente não leio este senhor. Não lhe dou respaldo nem audiência. Porque é disso que ele precisa. Não alimento cobras.

Penso que devemos iniciar uma campanha de boicote ao Blog do Barata. As empresas de comunicação deste estado já o empurraram para o ostracismo! Vamos nós agora, como cidadãos, fazer o mesmo. Vamos relegá-lo ao esquecimento.

Apelo principalmente aos colegas jornalistas. Vamos colocar em prática a idéia de controle social da mídia. Se ninguém ler o blog ele simplesmente perderá força.

Não tenho medo de retaliações. Simplesmente não leio aquele senhor e tudo que ele disser sobre mim, realmente, não me interessa.

Vamos levar adiante a campanha de boicote ao Blog do Barata!

Divulguem a campanha para o máximo de pessoas que puderem.

Simone Romero
Jornalista

Desafio à mentira!

Basta!


Conheço Paulo Roberto Ferreira há muitos anos. É uma as pessoas mais dignas que já encontrei ao longo da minha vida – e olha que isso não é pouca coisa, não. É um intelectual extraordinário. Um jornalista brilhante que angariou credibilidade e respeito, por onde passou.

Foi, aliás, Paulo quem me despertou para a política, quando nos conhecemos, nos idos de 1981. Eu não sabia necas de pitibiriba. Ele me ajudou a ver o País e o mundo desigual em que vivemos. Devo a ele, enfim, a melhor parte da minha visão de mundo.

Nunca esquecerei da coragem de Paulo, aquando das primeiras eleições que este País viveu, em 1982, após a longa abstinência imposta pela ditadura. Lembro dos enfrentamentos que tivemos com o Sá Leal (um jornalista extraordinário!). E que, a par desses enfrentamentos, nunca deixou de nos respeitar. Justamente, porque nos fazíamos respeitar.

Porque se fazer respeitar implica não ser lambão; não render toda sorte de mesuras ao “senhor” que paga o osso; não desvirtuar a realidade, com toda sorte de mentiras, para alcançar uma sinecura qualquer.

Jornalismo não é destilar veneno. Isso, as víboras fazem com bem mais competência e precisão. Aliás, até rastejam melhor.

Fazer-se respeitar, jornalisticamente falando, quer dizer o oposto: é ser competente, doutor, não em puxa-saquismo, mas no ofício de reportar.

Paulo, sempre mais inflexível que eu, nunca transigiu em relação a isso. Eu, mais catita, sempre deixei claro que a servidão só existe, enquanto for conveniente ao “servo”, também.

Lembro de uma vez que Paulo, intransigente como ele só, me disse que eu nunca seria uma revolucionária de fato, devido a minha origem burguesa. Na cabeça dele, a dominação tinha a ver com genética e criação. É um direito dele pensar assim – ou ter pensado assim – como é um direito meu morrer de rir de tamanha simplificação.

Mas, apesar de tantas diferenças, seguimos amigos por todos estes anos. E eu prezo a amizade dele, mais do que a maioria das coisas que prezo neste mundo. Porque me orgulho de ser amiga de alguém tão íntegro. Faz-me bem saber que alguém dessa magnitude tem amizade a mim.

É por isso que, puxar briga com o Paulo, é puxar briga comigo. E eu não tenho a comiseração dele. Nem as papas na língua que ele tem. Para mim, como diria um político paraense, da cintura pra baixo tudo é canela.

Não acredito nem em céu, nem em inferno. Faço o que se pede, a quem necessitar. É barba, cabelo e bigode.

Ando meio irritada com essa coisa de estarem tentando acertá-lo. Tentei não me meter. Mas é impossível. Gosto do Paulo Roberto tanto quanto gosto de mim.

Nunca conheci um petista mais petista que ele – um petista, de fato, digno desse nome. Assim como nunca conheci tucana mais tucana que eu...

Mas, Paulo é da paz, enquanto eu vivo para a guerra. Venham quantas vierem. Quantos forem os exércitos que necessitarem disso.

Já combati mais de 50, sozinha. Pois, que venham três – isso é fichinha.

Não me importo, minimamente, de revirar os podres alheios. Até porque tenho treinando as minhas moscas para isso, a vida inteira. Sorrindo, revelo os bêbados, os canalhas, os lambe-botas. E o que disserem de mim, é sobejamente conhecido. Tal as moscas, educadíssima, sei quem sou e onde me é dado assentar.

De há muito, Paulo deveria integrar um governo do PT. Defendo-o, fervorosamente, para a Assessoria de Comunicação. Tal cargo, enfim, teria a dignidade que merece. Com um técnico competente e honesto que não viveria de propinas, para jogar na primeira máquina disponível, nem do ódio patológico que algumas pessoas (pessoas?) guardam em relação ao mundo.

Essas pessoas que, quando morrerem, é verdade, acharão quem lhes jogue, por cima, carradas de terra. Mas, pela certeza que querem ter de que uma abjeção como essa, tão cedo, não tornará ao mundo.

Paulo tem a capacidade de lidar com os Maiorana e com os Barbalho. E de aproveitar a estrutura existente para montar um sistema alternativo de comunicação de massa, independente dos jornalões.

Não deveria dizer isso, porque sobrevivo dos jornalões. Mas, enquanto os governos que vêm do povo (como a DS pretende ser) não conseguirem construir essa terceira via, vão penar, com certeza, nas mãos de quem detém o poder econômico e a capacidade de mobilização social.

É preciso um sistema de comunicação alternativo, ideologicamente comprometido, massivo e direto.

Mais não digo, nem me foi perguntado.

Neste momento solene, prefiro aguardar pelos leões. Que maravilha! Vou poder matar e esfolar novamente!

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Divagando, divagando...


O jogo



A beleza do jogo democrático consiste, justamente, na impossibilidade de impedir aliados e adversários de jogar. O que nos obriga a jogar melhor, e cada vez melhor, do que todos eles.

Isso implica, necessariamente, predisposição a alianças e agilidade para desfazê-las e refazê-las tantas vezes quanto necessário.

Requer atenção, para evitar que algum dos jogadores se cacife em demasia. E para aproveitar as oportunidades, decorrentes de fracionamentos nos terrenos alheios.

É preciso, principalmente, saber até onde se pode ir: não se endividar além do cacife de que se dispõe ou de que se possa vir a dispor. Estar atento, não apenas aos novos aliados, mas, também, aos antigos.

É preciso ter em mente, em suma, que os que vieram a este grande cassino, vieram para jogar. Não são anjos, nem demônios, mas jogadores. Todos com pleno domínio do discurso e das manhas da política. Alguns, por vezes, até mais do que nós...

Todos, portanto, entraram no cassino dispostos a conquistar o máximo. E compete à banca, sutilmente, estabelecer até onde podem ir. Não se pode esperar, simplesmente, que parem. Ou acreditar, ingenuamente, que se contentarão ao atingir um determinado volume de fichas. Todos, se puderem, levarão o cassino pra casa.

Cassino algum pode sobreviver na condição de casa da mãe Joana. Mas, também, não sobrevive com apenas um cliente – ou é feito, apenas, para o dono. É preciso, então, ampliar cada vez mais a clientela, para garantir a sobrevivência. Mas, sem que isso implique perder o controle sobre quem é quem e o que faz ali dentro.

Um bom começo é saber que não se está no terreno do sagrado, mas do profano. Apesar dos propósitos do jogo se afigurarem, por vezes, redencionistas.

E compreender que jogadores são pessoas. Com múltiplas facetas e aspirações – tão diversas quanto os seres humanos. É preciso, portanto, conhecer as motivações de cada qual, bem como as capacidades e fragilidades que apresentam. Isso inclui não apenas os aliados e os adversários. Mas, sobretudo, nós mesmos.



Se Ana Júlia tiver isso em mente, já será o suficiente para que possa ensaiar um belo sapateado de catita. E ela vai precisar disso, para o jogo que tem pela frente.

A segmentação petista, por si só, já é capaz de provocar grandes dores de cabeça. O que dizer, então, das alianças que estão postas e das que terão de ser conquistadas, para possibilitar a governabilidade?

Infelizmente, o PT, assim como o PSDB, ainda não conseguiu encontrar um meio-termo entre o pragmatismo e o messianismo – duas pragas que complicam, sobremaneira, a costura de eventuais alianças.

Mas, enquanto o PSDB, apesar do inchaço fisiológico, conseguiu construir uma certa unidade pública, o PT segue a se estapear publicamente. E, na maioria das vezes, acaba se tornando seu maior e mais feroz adversário.

Poder-se-ia argumentar que é assim, porque é um partido democrático. Mas, isso é lári-lári. Porque, quando é preciso, também sabe engolir, caladinho, decisões de cima pra baixo.

Em verdade, a questão central é encontrar os limites éticos e democráticos para a conquista e manutenção do poder. A harmonia entre a nobreza dos fins e os meios – jamais tão nobres assim – que terão de ser utilizados.

É uma lição de casa que o PT ainda não conseguiu fazer. E na qual o partido-irmão, o PSDB, pelo menos no Pará, acabou, vergonhosamente, reprovado.

Torço para que o PT tenha aprendido com os erros nacionais e com os erros do partido-irmão, aqui no Pará.

E para que, um dia, PT e PSDB compreendam o mal que causam à sociedade, com essa disputa feroz e narcisista, que nos impede de avançar em discussões tão importantes, para a cristalização da ética e da democracia na política brasileira.



Não tenho procuração para defender Ana Júlia – nem tenho por que fazê-lo. Afinal, ela é maior, vacinada e possui muito mais poder do que eu, que sou um zero à esquerda no jogo político.

No entanto, fico indignada com algumas colocações que são feitas por aí, acerca do futuro governo dela. Não apenas porque votei nela. Mas, principalmente, porque o ranço machista dessas colocações é ofensivo a todas as mulheres.

Antes de Ana ser eleita, a argumentação dessas pessoas era a de que é despreparada. E eu até já escrevi, neste blog, sobre isso.

Não acho que Ana seja um Einstein de saias – nem perto disso. Mas, burra, ela não é. É sagaz, tem jogo de cintura, o que requer inteligência.

È verdade que poderia ter estudado, lido mais, ao menos para ter mais segurança daquilo que diz. Mas, isso a coloca, apenas, na média dos políticos brasileiros - não abaixo disso. E não é nada assim tão complicado que uma boa assessoria não possa resolver.

Lembro que quando escrevi sobre essas acusações, apontei o machismo nelas contido.

É que de nós, mulheres, se exige, sempre, que sejamos ultra, super e coisa e tal. Como se o triunfo, para nós, fosse, sempre, decorrente de exceções.

Nunca vi alguém chamar de despreparado um triunfante homem médio. Mesmo os francamente imbecis, sórdidos, ordinários, venais, execráveis, canalhas se transformam, magicamente, em excêntricos – não em, ofensivamente, despreparados.

Ou seja: se não formos uma exceção, plástica ou cognitiva, temos mais é de nos recolher à insignificância da “condição feminina”... É o caso de se perguntar: de que árvore caíram esses animais?



Bom, esse negócio de despreparo era antes de Ana ser eleita. Agora, o que se fala é de uma extensão desse despreparo. Diz-se que será refém de Jader, rainha da Inglaterra e etc e tal.

E eu reviro a memória, mas não recordo de uma única vez em que alguém tenha afirmado que o Dudurudu é refém da bancada majoritária, na Câmara, ou de Jatene. Aliás, não me recordo de qualquer prefeito paraense a quem se tenha impingido tal pecha. Muito menos, de um governador de Estado.

Não quero ser maçante, mas tudo isso é grego. Remonta há 2.500 anos, quando a “areté” (mal traduzida por virtude; melhor compreendida por excelência) das mulheres era a beleza e competência doméstica; ao passo que a “areté” masculina era, nos tempos homéricos, aquele conjunto de qualidades que voltaremos a encontrar na idade média: coragem, força, nobreza.

Não vou discorrer, aqui, sobre as mudanças no conceito de “areté”, ao longo da evolução da sociedade grega. Basta que compreendamos que nada disso é novo. O pensamento que está na raiz é, antes, profundamente arcaico. Os papéis sociais, do macho e da fêmea, ali definidos, estão, ainda, profundamente enraizados na sociedade Ocidental.

Logo, quando se faz de Ana Júlia refém de Jader, faz-se dela a “donzela aprisionada na torre”. A Penélope bordadeira à espera de Ulisses. Psicanaliticamente, pensar-se-ia, em seguida, na “espada salvadora”. Ou seja, a fala dessas pessoas é de um primitivismo brutal. Não sei se, de caso pensado, para manipular arquétipos. Ou se, simplesmente, porque ainda se encontram aprisionadas, mentalmente, nos primórdios da civilização.

Enfim, nada de tão espantoso num estado tão machista quanto o Pará.

Num post anterior, aliás, eu já mencionava a nossa falta de “heroínas” – diferentemente do que vemos, historicamente, em São Paulo e no Rio Grande do Sul, por exemplo.

Nada que não possa ser perfeitamente explicável pela condição de “uso”, que as mulheres, aqui, sempre tiveram. Herança portuguesa? Sei lá. O que causa espanto é ver tal pensamento reproduzido por intelectuais.

Mas isso, talvez, também possa ser compreendido pela falta de leitura de muitos a quem chamamos, aqui, intelectuais. Que, mais das vezes, nunca conseguiram acabar nem livro didático. E do primeiro grau.

Cansei de divagar. Vou tomar uma. FUUUUUIIIIII!!!!!

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Pensando, pensando...

Uma meditação blogosférica!



Acho que preciso resolver a minha relação tempestuosa com este blog. Como todas as minhas relações, aliás.

O blog me atrai e me afasta. Era um amor, um encantamento. Quedou-se em obrigação. Quase um suplício. E eu olho pra ele, ele pra mim... E eu penso: mas, por que, diabos, tenho de bater ponto aqui?

Que compromisso é esse que com os leitores, se pouco sei acerca deles?

Um ou outro, certamente, conheço. Mas, à maioria, nunca disse um “olá”. E, talvez, nunca venha a dizer.

É diferente do jornal. Lá, é o meu ganha-pão. Há uma obrigação profissional a cumprir. Mais não fosse, para garantir o leite das crianças.

No entanto, insisto em vir aqui. Nem que seja para produzir porcarias, como o post abaixo. Com uma edição de última, um poeminha de penúltima e uma seleção musical que parece coisa de bêbada – e o pior é que foi...

É engraçado como criamos laços, mesmo virtualmente.

É engraçado como entabulamos um papo, assim, tão francamente, que até as mesas de bar – e o indefectível barman, o profeta de todos os bêbados – morreriam de inveja.

Será pela ausência do “olho no olho” ? Acho que não. Afinal, já passei pela experiência de conhecer, pessoalmente, a quem só conhecia deste universo virtual. Foi agradabilíssimo – só espero que mutuamente...

E mesmo com as pessoas que já conhecia, parece que o depois se tornou infinitamente melhor que o antes. E nem precisei fumar um cigarro. Ou engatar o clássico: “foi bom pra você?”.

Sei lá. Talvez, aqui, exercitemos, mais que nunca, o lúdico. Rimos, falamos mal do mundo. E parece que quase podemos tocar uns aos outros; ouvir as nossas risadas. É como se encontrássemos, enfim, a nossa “tchurma”.

E é por isso que preciso resolver essa relação tempestuosa.

Nunca fui de “tchurmas”. E até morro de medo delas. Sempre gostei de me sentir “babanianamente” independente, se é que vocês me entendem, ó “xentes”!

Sabe, é aquela coisa de achar que você faz e acontece sozinho. Que pode ser mais. Como se fosse o infinito e, não, apenas, parte dele. Com partes e partes entrelaçadas. Por vezes, infinitamente mais belas, necessárias e brilhantes que você.

Será que um blog, afinal, não passa de um grande divã de psicanálise? E quem seriam os analistas? Essa plêiade de leitores tão amalucados quanto nós? (Adesculpem, leitores! Mas é que estou tentando abrir o coração, vocês me entendem?).

Coisa estranha, essa, a sociedade em que vivemos. Não, não é que estejamos ou sejamos sozinhos. É, antes, como se tivéssemos criado todo um novo mundo, para sermos outros.

Não, não se trata de mais uma máscara social ou de um universo paralelo. Afinal, continuamos sendo, concretamente, todos os dias, para toda a anterioridade.

Até que ponto essa experiência nos modifica, isso é papo para trezentas grades – e com o “profeta” de plantão a mediar tais debates.

O que não há dúvida é que esse “Éden” que criamos é profundamente belo; inescapavelmente belo. É nosso. É “nós”. Em duplo sentido...

Somos as comadres do terceiro milênio. Patrulhamos e torcemos os narizes a todos os comportamentos diferentes. Mas, ao mesmo tempo, abrimos um senhor espaço para que a atingida (o) possa rodar a baiana. E até nos levar a concordar – e a chorar – com ela (ele).

Seremos, quem sabe, uma grande ágora. Mas, com uma vantagem indiscutível: aqui, com certeza, não condenaríamos Sócrates a beber cicuta. No máximo, ele esbravejaria de blog em blog. E seria deletado do orkut...

Mas, quem sabe, não iríamos, todo santo dia, ao blog socrático, nem que fosse para a nossa sessão diária de camisa de força? Ou para, numa higiene mental, francamente narcisística, pensarmos: “esse daí pensa que sabe. Eu, pelo menos, sei que não sei. Já tenho uma vantagenzinha em relação a ele, pois”.

E é por isso, repito, que preciso resolver a relação tempestuosa com este blog.

Porque ele me fez gostar e querer sempre mais. Mais, talvez, até de mim.

Já o transformei uma vez. E, talvez, o transforme duas, três, mil vezes.

Vou pensar nisso. Pensemos, não é mesmo?

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Uma noite lisboeta, com certeza!

Ai, Mouraria!

Ai, Mouraria!
Da velha rua da Palma,
Onde eu, um dia,
Deixei presa a minha alma,
Por ter passado
Mesmo ao meu lado
Certo fadista
De cor morena,
Boca pequena
E olhar trocista.

Ai, Mouraria!
Do homem do meu encanto
Que me mentia,
Mas que eu adorava tanto.
Amor que o vento,
Como um lamento,
Levou consigo,
Mas que ainda agora
A toda a hora
Trago comigo.

Ai, Mouraria!
Dos rouxinóis nos beirais,
Dos vestidos cor-de-rosa,
Dos pregões tradicionais.
Ai, Mouraria!
Das procissões a passar,
Da Severa, voz saudosa,
Da guitarra a soluçar.

(Amadeu do Vale, Javier Tamames e Frederico Valério)


Novo fado da Severa

Ó rua do capelão,
Juncada de rosmaninho!
Se o meu amor vier cedinho,
Eu beijo as pedras do chão,
Que ele pisar no caminho.

Tenho o destino marcado,
Desde a hora em que te vi!

Ó meu cigano adorado,
Viver abraçada ao fado,
Morrer abraçada a ti!

(Desconhecido)


Uma Casa Portuguesa

Numa casa portuguesa fica bem
Pão e vinho sobre a mesa.
E se à porta humildemente bate alguém,
Senta-se à mesa co'a gente.
Fica bem essa franqueza, fica bem,
Que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
Está nesta grande riqueza
De dar, e ficar contente.

Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho á alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim,
Um São José de azulejos
Mais o sol de primavera,
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

No conforto pobrezinho do meu lar,
Há fartura de carinho.
E a cortina da janela é o luar,
Mais o sol que bate nela...
Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar
Uma existência singela...
É só amor, pão e vinho
E um caldo verde, verdinho
A fumegar na tigela.

Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho á alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim,
Um São José de azulejos
Mais o sol de primavera,
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

(Reinaldo Ferreira)


O Pastor

Ai que ninguém volta
Ao que já deixou
Ninguém larga a grande roda
Ninguém sabe onde é que andou

Ai que ninguém lembra
Nem o que sonhou
Aquele menino canta
A cantiga do pastor

Ao largo
Ainda arde
A barca
Da fantasia
O meu sonho acaba tarde
Deixa a alma de vigia
Ao largo
Ainda arde
A barca
Da fantasia
O meu sonho acaba tarde
Acordar é que eu não queria.

(Madredeus)

Alcoforado

Mariana I

Do alto do convento, da manhã à tardinha,
Os olhos de Mariana eram o céu e o mar.
Da manhã à tardinha, eram ondas a rezar.

E dos muros partiam asas
Entre oceanos, quimeras.

O mundo e um deus reposto,
Das dores cerradas no peito,
Quem dera ao Amor comovessem,
E sangrassem - às pedras, às gentes!...

Mas eram os muros, as grades, as correntes.
O indizível em céu e mar.

E Mariana contentou-se, enfim,
Com o que o Deus lhe dera,
Com que o mundo lhe dera
Com a vida, sempre abençoada.

E seus olhos se fecharam, ao encontro de Deus.

Mas, dizem, inda hoje,
dos muros partem asas.
Da manhã à tardinha,
Entre as ondas,
A rezar, a rezar...

(Belém, 14/11/2006)

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Festa IV

Festa no meu Apê IV




_Comadre, comadre! Você já viu os jornais de hoje?
_E como é eu posso, cumadizinha, com essa festança no meu apê?
_Pois, então, se aprepare...Se assente, que é pra não cair!
_Ué, o que foi que aconteceu já?
_Comadre, a Plebe Rude tomou o poder!
_Que? Me deixe ver esses jornais! Égua!!!... Derrubaram El Rey!!!... “Carruagem vira em Varennes” !!!...“Sovietes assumem o Brejo”!...Sovietes?!!!
_Eles não se esquecem, comadre, eles não se esquecem...
_Caramba!... “Onda vermelha varre a província!”...
_E o príncipe Clean macambúúúzio!...
_Ué? Colocaram a “Beijoca Proletária” no lugar de El Rey?!!! E tem esse modelo já?
_Ô comadre, é a Beijoca repaginada! Arreleve!
_Égua!!!... Nomearam o lorde Sudão pra “Grilo Falante”!... E tem esse cargo?...
_Ô comadre, apare de se atormentá, mais é! O seu problema é “apreguntááá” demais... Se você continuá assim, vão chamá a festa no seu apê de Baile da Ilha Fiscal! Se aquieeete no seu canto!...
_Mas é que eu não tô entendendo nada!!!...
_Mas num é pra intendêêê, comadre! É pra acompanhááá a procissão...
_Mas o lorde Sudão e esses neos, news sovietes não eram inimigos?
_Ô comadre! O seu problema é que você não entende nada de política. Pere aí que vô chamá um especialista! Ô seu Barão, ô seu Barão! Se achegue aqui!

(A iluminação muda. O DJ ataca “New York, New York”. O Barão, de fraque, cartola, bengala e cercado pelas quatro “indaietes”, canta e dança: “Start spreading the news/I'm leaving today/I want to be a part of it/New York, New York/These vagabond shoes/Are longing to stray/Right through the very heart of it/New York, New York/I wanna wake up in a city/That doesn't sleep/And find I'm king of the hill/
Top of the heap/These little town blues/Are melting a way/I'll make a brand-new start of it/In old New York/
If I can make it there/I'll make it anywhere/It's up to you/New York, New York/New York, New York/
I want to wake up/In a city that never sleeps/And find I'm a number one, top of the list/King of the hill, a number one/These little town blues/Are melting a way/
I'm gonna make a brand-new start of it/In old New York/And... if I can make it there/I'm gonna make it anywhere/It's up to you/New York, New York”).
(aplausos)

_É “mermo” um artista...
_E da melhor qualidade, cumadizinha! E da melhor qualidade!
_Do Brejo para o mundo!
_Do Brejo para o mundo!
_Boa Noite, minhas senhoras! Há quanto tempo, não é?
_Mas, como? Faz dois atos que o senhor saiu Hare Krishna e volta, assim, mistura de Fred Astaire com Frank Sinatra...
_São os ventos, minha senhora! Precisamos acompanhar os ventos da mudança!
_Mas ele continua bilezinho!...
_Huuuummm!...Você ainda não viu nada! Espere ele falá do “Gladiadô”...
_Agora mesmo eu comentava, com alguns parceiros, sobre aquela cena nova e extraordinária, daquele filme novo e extraordinário...
_Vixe Maria! Vai começá!...
_Não sei se a senhora assistiu, dona Perereca. Mas é um filme fantástico, sobre a cadeia produtiva da coragem...
_Que diabo é isso já?
_E eu é que sei, comadre! Se você não acompanhá o discurso do ômi, quem é que aconsegue?
_Os gladiadores estão no centro da arena. E soltam os leões...
_Eu diria que até tarde!...
_Pois não é, comadre?...
_E veja só que coisa fantástica, dona Perereca: o líder nem estremece!...
_Não tenho palavras!...
_Nem eu, comadre! Nem eu!...
_E é, então, dona Perereca, que ele – o líder! – diz uma coisa que eu considero fantástica: não podemos nos dispersar! Precisamos estar juntos! Porque, juntos, somos fortes! Somos, verdadeiramente, invencíveis!...
_Comadre, eu vou pegá uma caixinha de Kleenex!...
_Pegue uma pra mim, também, cumadizinha!...E não se esqueça do meu Prozac!...
_A senhora entende a profundidade do que eu estou dizendo?
_Com certeza, Barão!... Estou até me desfazendo em lágrimas!...
_Não chore, minha senhora! Eu sei que eu sou, realmente, algo novo...
_...E extraordinário! Machado de Assis que o diga!...
_Essa cena eu considero, realmente, de uma significância irretocável. O confronto final entre o ser e o parecer!... Não sei se estou indo rápido demais para a senhora...Não sei se a senhora está conseguindo acompanhar a profundidade do meu raciocínio?...
_Com certeza, Barão!...Sou freudiana desde pequenininha...
_Veja: eu sei que há parceiros morrendo de medo, por causa da queda de El Rey. Sabe, é aquela analogia dos gladiadores e dos leões, a senhora compreende?
_Com certeza, Barão! Nem Esopo faria melhor...
_E eu, agora, tenho de encarar o que o destino me reservou!
_É: o destino e seus nomes!...
_Com a queda de El Rey, eu serei obrigado, fatalmente, a arregimentar o nosso exército!...
_E eu avalio o quanto o senhor está sofrendo, não é “mermo”?...
_A senhora é testemunha, dona Perereca, do quanto eu abomino o poder!
_(...)
_Nunca quis nada disso: corte, rapapés...Dinheiro!?...
_(...)
_Mas, eu não sei...Parece sina...Essas coisas me perseguem! A senhora entende, não é, dona Perereca?
_(...)
_No fundo, às vezes, eu acho que só a senhora me compreende!...
_(...)
_Bem, infelizmente, se a senhora me der licença, eu preciso ir. Tenho de consolar os meus parceiros. E fazê-los entender, enfim, essa analogia nova e extraordinária dos gladiadores e dos leões! Adorei a festa no seu apê, dona Perereca. Vemo-nos por aí!
_(...)
_Tome lá, o Kleenex, comadre! Ademorei porque não achei o Prozac. Só tinha essa tal de maracujina, serve?
_(...)
_Ué, comadre, você andou estagiando com o lorde Balloon?
_(...)
_Vixe, mãe do Céu! Você ta engasgada? Apere lá!
_Cof, cof, cof, cof, cof, cof, cof, cof !!!!...
_Credo, comadre, o papo com o Barão foi tão ruim?
_Água, água!...
_Atome lá esse copo de cerveja, mais é! Que você vai ficá belezuuura!
_Ainda pre...(cof, cof, cof, cof) Ainda prefiro o Inri!
_Chamarrr, querrridinhas!
_Ô seu Inri, adeixe a comadre, mais é, que ela ta em estado de choque!...Tá melhó, comadre?
_Peça pra descer uma grade!...
_Credo, comadre! Se eu soubesse tinha ficado conversando com o Barão...
_Ele não conversa. Ele pensa que "adeclama"!
_Vixe, Maria! Olhe só quem ta entrando no seu apê!
_Caramba! Não é o lorde Sudão e a Beijoca?
_Em aliança e poder, comadre! Em aliança e poder!
_Rápido, cumadizinha, vá buscar a minha cadeira de rodas!

_Adianta, não, comadre! É agora que fecham o seu blog!...

(continua)

Aos Xutos e Pontapés!


Nasce Selvagem

Mais do que a um país
que a uma família
ou geração

Mais do que a um passado
Que a uma história
ou tradição

Tu pertences a ti
Não és de ninguém

Mais do que a um patrão
Que a uma rotina
ou profissão

Mais do que a um partido
que a uma equipa
ou religião

Tu pertences a ti
Não és de ninguém

Vive selvagem
E para ti serás alguém
Nesta viagem

Quando alguém nasce
Nasce selvagem
Não é de ninguém

(Delfins)

Cidade Oculta

Ah, saudade dos becos!




Shirley Sombra


Onde anda Shirley Sombra?

Em Naishpur ou Babilônia
Alguma taça, ou amarga ou doce
Verte o vinho da vida, gota a gota
Vão-se as folhas da vida, uma a uma
Ah! Vem, vivamos mais que a vida, vem
Antes que em pó nos deponham também
E sob o pó pousados, pó seremos
Sem cor, sem sol, sem sonho - sem.

(Arrigo Barnabé - recriação de Augusto de Campos da versão inglesa de Edward Fitzgerald do Rubayat de Omar Khayam)



Balada do Ratão


Nunca conheci quem tivesse levado porrada
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita
Indesculpavelmente sujo
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante

(Arrigo Barnabé, sobre fragmento inicial do Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa)



Ronda 2


Na noite alta os ratos rondam
E no asfalto os carros roncam

Bares e clubes luzem, sinais
Gangues de punks lúmpens demais
E prostitutas passam ao léu
E viaturas surgem no breu

Quando nas casas os justos dormem
Quando não matam os brutos morrem

Os seus olhos filtram letras
Luminosos, faroletes e holofotes
Nos seus olhos se reflete
Todo o lume do negrume dessa noite

Cena de bangue-bangue, faróis
Tiras, bandidos, anti-heróis
Tiros e gritos, cante mortal
Cena de sangue, lance normal

E pelas ruas, peruas rugem
Se abrem alas e as balas zunem

De repente você treme
E a sirene passa entre automóveis
Em suspense você pensa
O que pode com o ódio desses homens?

(Arrigo Barnabé e Carlos Rennó)



Cidade Oculta


Na cidade só chovia
Noite imensa, só havia
Luminosos, agonia
E a vida escorria pela escuridão

Nossas ruas eram frias
Como os homens desses dias
Engrenagens tão sombrias
Esquecidas pelos deuses
A pulsar em vão

Misteriosamente uma andróide
Gritou docemente
Me mostrou a vida
Me encheu de cores
Desenhando um holograma em meu coração
Com seus olhos foi pintando um dia
Reinventando a alegria, brancas nuvens de verão
E a poesia de repente volta a ter razão

(Arrigo Barnabé, Eduardo Gudin e Roberto Riberti)

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Eleições 2006

A vitória da alternância!


Só agora, às 2 da manhã, começo a colocar a cabeça em ordem, para digerir esse turbilhão e afastar o sentimento de irrealidade.

Creio que todos nos sentimos assim: vencedores e vencidos.

Nós, porque sabedores da dificuldade de chegarmos lá, contra a máquina rica e azeitada. Eles, por confiarem em demasia no peso dessa mesma máquina.

Mas, para além dessa vitória improvável, pesa nos ombros, também, a responsabilidade que essa conquista nos traz.

As dificuldades que teremos de enfrentar, para melhorar, de fato, as condições de vida do nosso povo, num país e numa região tão desiguais.

Tomara que consigamos construir essas melhorias, na velocidade que o nosso povo espera, precisa e merece.

Que sejamos, de fato, a tão sonhada mudança da realidade paraense, especialmente, para a dona Maria e o seu José.

Não há como negar, porém, o ponto mais positivo dessa vitória: a alternância.

Na democracia, poder algum pode estender-se por décadas, sob pena de viciar comportamentos e corromper as instituições.

A alternância e o respeito às oposições são componentes essenciais à democracia. E esta é, sem sombra de dúvida, uma das maiores conquistas da humanidade, nestes quase sete mil anos de civilização.

Precisamos avançar – não regredir. Precisamos tornar a democracia, de fato, massiva, inclusiva, digna desse nome.

Mas, em nome disso, não podemos eliminar-lhe elementos essenciais, como a tolerância e a renovação. Porque, sem isso, ela não será nada além de um grande circo romano.

É claro que estou feliz (e ponha feliz nisso!) com a vitória da Ana Júlia. Como disse, mais cedo, a um amigo, estamos, todos, de parabéns.

Esta foi, de fato, uma vitória coletiva, como reconheceu a própria governadora eleita. A vitória de uma equipe que jogou no estádio do adversário, contra o juiz, os bandeirinhas, os comentaristas e um time poderosíssimo.

Mas que encontrou, na camaradagem de seus integrantes e no carinho das arquibancadas, a força e a fé para seguir em frente.

Que equipe maravilhosa, essa, que conseguimos construir! E que conquista extraordinária, essa, que, pingando de suor, conseguimos alcançar!

Que, no entanto, só não me deixa mais feliz porque tenho muitos e bons amigos entre os tucanos. E eu imagino como eles devem estar se sentindo: exatamente como eu me sentiria, se estivesse a falar não da vitória, mas da derrota.

Todos apostamos alto nestas eleições. Vencedores e vencidos, demos a cara à tapa; o pescoço à guilhotina. Neste pleito acirradíssimo, nenhum de nós pôde colocar-se à margem, fingindo neutralidade. Todos fomos à luta. E é claro que a vitória traz, também, um certo alívio: afinal, seríamos levas e levas ao cadafalso...

No entanto, mesmo estando ao lado dos vencedores – e tendo feito aqui preciosos companheiros - não posso esquecer de quem sou.

Trabalhei vários anos com os tucanos, por acreditar no projeto tucano e por ter um coração amarelinho.

Fiz, também, entre os tucanos, alguns dos melhores amigos que jamais sonhei conquistar ao longo da vida.

Por isso, não posso deixar de apresentar a minha solidariedade aos vencidos.

E de manifestar a esperança de que o governo de Ana Júlia seja, de fato, um governo pacificador.

Por não querer ver sofrer pessoas a quem amo. Mas, também, porque acredito visceralmente na democracia.

Mas, principalmente, porque não perco de vista que a política é feita por gente de carne e osso; por pessoas iguaizinhas a mim. Com os mesmos sonhos e esperanças. Pessoas que amam e são amadas...

E agora, me dêem licença, que preciso bebemorar em paz.

Parabéns, camaradas, companheiros, queridinhos! Vocês não imaginam o orgulho que sinto por ter lutado ao lado de cada um de vocês!

Vejam só: as lágrimas, finalmente, estão começando a escorrer...

sábado, 28 de outubro de 2006

Que vença o eleitor!

Chegou a hora que todos aguardávamos: a hora da decisão.

Creio que não há mais nada a fazer, a não ser desejar boa sorte a todos.

De qualquer partido, de qualquer lado...

Afinal, todos fizemos o melhor que poderíamos; demos o melhor de nós.

Todos merecemos, enfim, a alegria da vitória.

Em ambos os lados, há guerreiros valorosos, extraordinários.

Gente que luta, com garra e muita fé, por aquilo em que acredita.

É da democracia que seja assim: que existam os prós e os contras.

E é preciso, portanto, que saibamos nos respeitar mutuamente.

Apesar das bicudas que, como acontece em toda guerra, é preciso desferir...

É claro que torço pela vitória da Ana Júlia e acredito nisso, sinceramente: acredito que vamos chegar lá.

E que o Pará, de ponta a ponta, nessa noite de domingo, será uma grande estrela vermelha!

Mas tenho a certeza, também, de que, qualquer que seja o resultado, o grande vencedor terá sido o povo do Pará.

Afinal, ao longo desses meses, lutamos batalhas memoráveis. Mas conseguimos mantê-las dentro dos limites do jogo democrático.

É claro que não faltarão queixas de um lado e de outro. Mas o fato é que nenhum de nós terá feito alguma coisa, que o outro também não fizesse, se surgida a oportunidade.

E, o mais importante: conseguimos conter nossas “tropas”, a fim de evitar episódios complexos.

Estamos todos, portanto, de parabéns – o “sarampo” e a “febre amarela”. E só espero é que consigamos manter tal postura nesse domingo, quando os nossos corações estarão pra lá de acelerados.

E espero, também, que, terminada a guerra, seja quem for o vencedor, saiba tratar com dignidade, com respeito, com espírito verdadeiramente democrático, o lado vencido.

Porque, em toda guerra, há o tempo de desembainhar, mas, também, o tempo de guardar as espadas, para que possa vicejar o tempo da negociação.

É só assim que conseguiremos, de fato, construir uma vida melhor para o nosso povo: com equilíbrio, com respeito às oposições, com visceral apreço pelo direito de divergir.

E porque, também, há, nas vidas de todos nós, muito mais que disputa política.

Há as alegrias do cotidiano. As pessoas que amamos. A esperança daquilo que buscamos ser e realizar.

Há todo um universo à espera dos nossos corações, quer estejam vermelhos ou amarelos.

Há toda a beleza que a vida nos oferece e que ansiamos abraçar.

Esta guerra, portanto, não é um nem um fim, nem um começo: mas, uma partícula de poeira cósmica no infinito que somos.

A todos, vermelhos ou amarelos, boa sorte. Que Deus esteja conosco e que
vença o eleitor!



Vermelho


Vermelhou o curral, a ideologia do folclore avermelhou.
Vermelhou a paixão, o fogo de artifício da vitória vermelhou.

A cor do meu batuque tem o toque e tem o som da minha voz.
Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante, vermelhão!
O velho comunista se aliançou ao rubro do rubor do meu amor.
O brilho do meu canto tem o tom e a expressão da minha cor (vermelho!).
A cor do meu batuque tem o toque e tem o som da minha voz.
Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante, vermelhão!
O velho comunista se aliançou ao rubro do rubor do meu amor.
O brilho do meu canto tem o tom e a expressão da minha cor.
(Meu coração!)

Meu coração é vermelho!
De vermelho vive o coração!
Tudo é garantido após a rosa vermelhar!
Tudo é garantido após o sol vermelhecer!

Vermelhou o curral, a ideologia do folclore avermelhou.
Vermelhou a paixão, o fogo de artifício da vitória vermelhou.
Vermelhou o curral, a ideologia do folclore avermelhou.
Vermelhou a paixão, o fogo de artifício da vitória vermelhou.

A cor do meu batuque tem o toque e tem o som da minha voz.
Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante, vermelhão!
O velho comunista se aliançou ao rubro do rubor do meu amor.
O brilho do meu canto tem o tom e a expressão da minha cor (vermelho!).
A cor do meu batuque tem o toque e tem o som da minha voz.
Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante, vermelhão!
O velho comunista se aliançou ao rubro do rubor do meu amor.
O brilho do meu canto tem o tom e a expressão da minha cor.
(Meu coração!)

Meu coração é vermelho!
De vermelho vive o coração!
Tudo é garantido após a rosa vermelhar!
Tudo é garantido após o sol vermelhecer!

Vermelhou o curral, a ideologia do folclore avermelhou.
Vermelhou a paixão, o fogo de artifício da vitória vermelhou.
Vermelhou o curral, a ideologia do folclore avermelhou.
Vermelhou a paixão, o fogo de artifício da vitória vermelhou.

(Chico da Silva)

(Não é casuísmo, não. É que adoro essa música...)



Redescobrir


Como se fora brincadeira de roda, memória
Jogo do trabalho na dança das mãos, macias
O suor dos corpos na canção da vida, história
O suor da vida no calor de irmãos, magia
Como um animal que sabe da floresta, memória
Redescobrir o sal que está na própria pele, macia
Redescobrir o doce no lamber das línguas, macias
Redescobrir o gosto e o sabor da festa, magia
Vai o bicho homem fruto da semente, memória
Renascer da própria força, própria luz e fé, memória
Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós, história
Somos a semente, ato, mente e voz, magia
Não tenha medo, meu menino povo, memória
Tudo principia na própria pessoa, beleza
Vai como a criança que não teme o tempo, mistério
Amor se fazer é tão prazer que é como fosse dor, magia
Como se fora brincadeira de roda, memória
Jogo do trabalho na dança das mãos, macias
O suor dos corpos na canção da vida, história
O suor da vida no calor de irmãos, magia

(Luiz Gonzaga Jr.)



Aquarius



When the moon is in the Seventh House
And Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
And love will steer the stars

This is the dawning of the age of Aquarius
The age of Aquarius
Aquarius!
Aquarius!

Harmony and understanding
Sympathy and trust abounding
No more falsehoods or derisions
Golding living dreams of visions
Mystic crystal revalation
And the mind's true liberation
Aquarius!
Aquarius!

When the moon is in the Seventh House
And Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
And love will steer the stars

This is the dawning of the age of Aquarius
The age of Aquarius
Aquarius!
Aquarius!

Harmony and understanding
Sympathy and trust abounding
No more falsehoods or derisions
Golding living dreams of visions
Mystic crystal revalation
And the mind's true liberation
Aquarius!
Aquarius!


(Hair – Trilha Sonora)

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Sobre o palanque paraguaio da bondade

A Honestidade de R$ 1,99


Sinceramente, não sei se rio ou se choro dessa mania tucana de satanizar os adversários. Quem não conhece os meandros do tucanato paraense, acaba até acreditando que está diante da quintessência da Moralidade: é tudo querubim ungido!

Mas, no que consiste, de fato, essa “ética” tucana?

É fato que o palanque paraguaio da bondade deles tem bem poucos algemados. Mas também é fato que eles ergueram, em 12 anos, uma autêntica muralha de impunidade, a impedir a investigação de inúmeros escândalos.

Veja-se o exemplo de Eduardo Salles, o sobrinho do governador Simão Jatene, com a fortuna que acumulou à sombra do tio – e cuja reportagem completa, aliás, está arquivada neste blog.

Vejam-se os mais de 20 parentes de Jatene, nomeados para o Governo do Estado, num autêntico “condomínio de contracheques”, como classificou um advogado.

Veja-se a Prev Saúde, a empresa da mulher e do filho do secretário de Saúde, Fernando Dourado, com os quase R$ 8 milhões que já faturou junto ao Executivo, justamente, na área da Saúde.

Vejam-se as denúncias de superfaturamento de remédios pela Sespa – e só a Controladoria Geral da União, na única inspeção realizada ali, flagrou um rombo de cerca de R$ 14 milhões.

Vejam-se os R$ 10 milhões adquiridos pela mesma Sespa junto a KM Empreendimentos, uma empresa enrolada até o pescoço, nas investigações sobre a máfia dos sanguessugas.

Vejam-se as inúmeras denúncias de superfaturamento de obras públicas, como a Estação das Docas e o Centro de Convenções – cujo metro quadrado, a R$ 3.400,00, é seis vezes mais caro que o mais alto custo do metro quadrado do país.

Veja-se o Hospital Metropolitano, cuja construção consumiu R$ 28 milhões, o dobro do inicialmente previsto, e onde só uma pracinha ficou em quase R$ 1 milhão.

Veja-se o caso Cerpasa – e só aí “sumiram” R$ 45 milhões em dívidas fiscais.

Veja-se a Clean Service, ligada a Marcelo Gabriel, filho do ex-governador Almir Gabriel, que já faturou, pelo menos, R$ 15,1 milhões junto ao Governo do Estado.

Veja-se o autêntico “laranjal” do empresário Chico Ferreira e os contratos milionários que abocanhou, nos últimos 12 anos, também do Governo do Estado – e que ultrapassam, largamente, os R$ 50 milhões.

Vejam-se os R$ 450 milhões da venda da Celpa, que até hoje os paraenses se perguntam onde foram parar.

Mas, de quanto é que estamos falando, mesmo? Qual o total de recursos públicos que desapareceram em tais escândalos?

Será que o saque se torna “menor” porque praticado pelo “Midas da Moralidade”?

Será que a impunidade torna o infrator menos rapace?

Ou será que falta é a Justiça agir, de fato, como Justiça?

Quantas algemas os “mocinhos”, os querubins ungidos desse palanque paraguaio da bondade estão a merecer?

Mas permanecem, todos, livres, leves e soltos, não é mesmo? A apontar o dedão acusador para tudo e todos, acionistas que são da Perobal S/A.

E seguem assim porque a “ética” que apregoam é, simplesmente, a da varrição da sujeira para debaixo do tapete. É o amordaçamento das instituições que têm a obrigação de acabar com essa festança.

No fundo, a “ética” do tucanato tem por alicerces a censura, o aliciamento e a perseguição. É um autêntico Bataclan, no qual se corrompe, até, o chefe de polícia. Daí inexistirem, entre os tucanos, as algemas que tanto aplaudem nos pulsos alheios.

Falam em despreparo de Ana Júlia. Mas, quem tem preparo? Valéria Pires Franco? Vic?

Falam em palanque da maldade. Mas, quem são os mocinhos deles? Marcelo Gabriel? Chico Ferreira? Eduardo Salles? Fernando Dourado? Raimundo Santos? Duciomar Costa? O algemado cidadão Flexa Ribeiro?

É engraçado. Nesse palanque paraguaio da bondade, nessa honestidade de R$ 1,99, há gente acusada de ligação com o crime organizado, de envolvimento no escândalo dos sanguessugas, de receptação e até de estupro e de corrupção de menores. Há bacanagens para todos os gostos: todo tipo de fraudes licitatórias e de malversação do dinheiro público que se possa imaginar.

No entanto, dizem eles, os bandidos somos nós. Vai ver que é porque se esqueceram de olhar de perto a própria latrina.

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

The Lest

De volta ao começo



Como chegaram a esse ponto? Ela tentava, mas não conseguia compreender. Parecia que não havia palavras. E quando as havia, elas morriam no peito sufocado.

Não, não havia gestos, nem olhares. Eram muros e muros de pedra, erguidos, sabe-se lá por quem.

Desertos? Antes fossem!... Pois, que haveria esperança de chuva. Mas era o desespero puro e simples. Um frio que se impunha, entre abismos e abismos e abismos que os olhos não conseguiam alcançar...

Procurou um tempo passado. Mas os pretéritos se perderam no presente e no futuro.

De que morrera, afinal, tal sentimento? O mais profundo do coração não saberia dizer. Certo dia foi-se, simplesmente. Quem sabe, rendeu-se ao ciclo da vida. Esperando que, lá adiante, houvesse quem o compreendesse. Os filhos, os netos, os bisnetos, enlevados por essa coisa que, distante do chão, convidava a voar sobre todos os universos.

Mas isso seria, quem sabe, o futuro. A recompensa havida, mas que não se veria, afinal. Seria os genes, o sangue, que espalhara pelo mundo. Mas e ela? Viveria em função disso, seria, apenas isso? Uma promessa? Um futuro incerto? Um desejo irrealizado por gerações?

Queria abraçar-se à noite. Novamente, abraçar-se à noite. Como coisa que ouvisse, impunemente, todos os segredos. Queria arder em vida. Ser um átomo decomposto em zilhões de gentes. Queria sangrar por todos os poros, mas indo adiante.

Ao invés de se acabar em desespero, nessa estação enlouquecida, queria recuperar as rédeas da própria vida. Domá-la, como já a domara um dia. Ser além.

Ousar, mais que todas as mulheres do mundo, por gerações. Erguer-se, como quem, de fato, jamais se verga. Ser o rio, jamais um afluente.

Não, não: quem nasceu pra sol, jamais será a sombra, por mais que tente. O adjetivo, por mais que se busque, será sempre no feminino. Impossível tentar não ser.

E o que vier, além disso, será o “ia”: o que poderia, o que haveria, o que seria.

Não, como ele haverá outros homens – sempre os há. E se não houver, haverá, por certo, outras gentes.

Afinal, a mão que corre o corpo, que afaga os cabelos, é, simplesmente, a mão...

Mais importante é ser o que se é, enfim. Olhar-se ao espelho e amar-se, não pelos olhos alheios, mas pelos próprios.

Mas, depois de tanto discurso, continuo pensando: caralho, o que foi que aconteceu?!!!

domingo, 22 de outubro de 2006

Festa no Apê III

Festa no meu Apê III


(Abrem-se as cortinas. E o Príncipe Clean, de topete e roupa branca justíssima, tendo em uma das mãos uma vassoura, e na outra, um aspirador de pó, desata a dublar:

It's now or never/come hold me tight/Kiss me my darling/be mine tonight/Tomorrow will be too late/
it's now or never/My love won't wait./When I first saw you/with your smile so tender/My heart was captured/
my soul surrendered/I'd spend a lifetime/waiting for the right time/Now that your near/the time is here at last./It's now or never/come hold me tight/Kiss me my darling/be mine tonight/Tomorrow will be too late,
it's now or never/My love won't wait.)
(aplausos)

_É só comigo que acontecem essas coisas, é só comigo!... Parece que eu tenho o dom de atrair maluco! Agora, fica o Príncipe Clean, limpando o meu apê. E ainda por cima imitando o Elvis Presley...Só pode ser macumba mal feita, só pode...
_Adeixe o ômi, mais é, comadre, que a limpeza vai ficá belezuuuuura! O Príncipe é o maior especialista do Brejo! Varre pra cá, aspira pra lá, ajunta pra acolá! E quando a gente vê... Some tuuuuuuudo! E é próprio Houdini, comadre: não tem algema que lhe assegure!
_Xiiiiiiii! Ele vai ligar o aspirador. Ai, meu Deus, não vai dar pra ouvir mais nada!
_Pere lá que eu vou falar com ele. Ô seu Príncipe, ô seu Príncipe, achegue aqui!
_Boa noite, minhas senhoras! Dona Perereca! Querida correspondente! Muito obrigado pelo convite para esta festança. Que apartamento maravilhoso! Confesso que estou até emocionado!
_Ué, por que seu Príncipe?
_É que nunca encontrei tanta sujeira!
_Pera lá!... Tá certo que o meu apê é bagunçado... Mas, sujo, não!!!
_E como é que a senhora explica essas toneladas de papéis por todo canto? E que papéis! Tem de tudo: superfaturamento, pagamento em duplicado, dispensa de licitação, contratos ilegais. Tem até o lorde Comissário comprando passagem aérea por debaixo do pano! Tem pracinha a R$ 1 milhão!!!... É bem verdade que eu já fiz melhor que isso: já vendi banana a preço de salmão... Mesmo assim, há armações magníficas aqui! Quem diria, né, dona Perereca! A senhora engana direitinho...
_Ê, pere aí, seu Príncipe: isso daí não é da comadre, não! É que ela trabalha com esses trecos de reportagem investigativa!
_Quer dizer que a senhora não fez nada disso? E eu pensando que havia encontrado a minha alma gêmea!...
_Que é isso, seu Príncipe? Isso daí é tudo do pessoal da Corte, que a comadre investigou! Tem coisa do conde de El Dorado, da Barbie Princesa e até, sabe, do “D”...
_Do “D”???!!!... Bem que eu fiquei desconfiado! Veja isso daqui!... Não é coisa de amador?
_Ué, quem é o “D”? É o Duzinho?
_Aaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!
_Vixe Maria, que o ômi pirou! Ô comadre, não fale nesse nome perto do Príncipe!
_O quê? Duzinho?
_Aaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!
_Credo, comadre! Se cale, mais é, senão o ômi acome os papéis todinhos! Adeixe comigo que eu vou falar com ele! Seu príncipe, seu príncipe... Inspire, expire e diga: AUUUUUMMMM!
_AUUUUUMMMM!
_Vamo lá de novo: AUUUUUMMMM!
_AUUUUUMMMM!
_OOOOMMMM!
_OOOOMMMM!
_Acenda, rápido, uns incensos, comadre, e vá tocando a sinetinha! E agora, seu Príncipe, arrepita comigo: eu sou o maior!
_Eu sou o maior!
_(triiimmmm)
_Eu sou espetacular!
_Eu sou espetacular!
_(triiiimmmm)
_Comigo ninguém pode!
_Comigo ninguém pode!
_(triiimmmm)
_Alimpo o meu, o seu, o nosso!
_Alimpo o meu, o seu, o nosso!
_(triiimmmm)
_Papai!
_Papai!
_(triiiimmmm)
_Amém!
_Amém!
_(triiimmmm)
_Tá melhor, seu príncipe?
_Muito melhor, querida correspondente! A senhora, como sempre, é fundamental! Uma hostess! E quanto à senhora, dona Perereca, fique sabendo que só não lhe expulso do Brejo, por causa dessa lady extraordinária. Você, querida, é maior que a eternamente Marilda! Beijos!
_Obrigada, seu Príncipe! Vá pela sombra, viu! E não alimpe as ruas! O lorde Tirésias aprecisa também!!!...
_Mas será que eu não dou uma dentro?
_Ô comadre, o problema é que você só fica fechada neste seu apê! Você precisa aprender a linguagem da Corte! Arrepita comigo: Bufunfa!
_Bufunfa!
_Inexigibilidade!
_Inexigibilidade!
_Superfaturamento!
_Superfaturamento!
_Sou venal, mas quem não é?
_Ei, ei, ei, ô animal? Que história é essa? Sessão de auto-ajuda pra riba de muá? E ainda por cima nesses termos?!!!...
_Ô comadre, é só pra relaxar!...
_E como é que eu posso relaxar, com esse bando de doidos no meu apê? Já vomitei duas vezes. O Barão acabou com os peixes do meu aquário. E, agora, estou até ameaçada de expulsão do Brejo! Pra completar, ainda tem aquele maluco do Inri...
_ Xi, comadre! Falou no Diabo, apareceu o rabo!
_O quê?
_Olhe lá quem ta entrando, de novo, no seu apê!...

(As luzes começam a piscar. Trovões. As luzes estabilizam, mas a iluminação é especial. Começa a tocar a Aleluia, de Handel. Mas, súbito, aparece o lorde Balloon, no meio do palco, que faz gestos irritados para o DJ e manda parar tudo. Sempre por meio de gestos, manda trocar o fundo musical. Descem do teto equipamentos de discoteca. O DJ ataca “Dancing Queen”, com os Abba. Aparece o Inri, sem barba e de cabelo vermelho, vestido a drag queen, cercado por quatro moças, também, com roupas coladas, brilhantes e penacho, como o dele. Os cinco dublam “Dancing Queen”. Todos dançam no apê:

You can dance, you can jive
having the time of your life
see that girl, watch that scene
dig in the Dancing Queen

Friday night and the lights are low
looking out for the place to go
where they play the right music
getting in the swing
you come to look for a king

Anybody could be that guy
night is young and the music’s high
with a bit of rock music
everything is fine
you’re in the mood for a dance
and when you get the chance

You are the Dancing Queen
young and sweet only seventeen
Dancing Queen
feel the beat from the tambourine, oh yeah
you can dance, you can jive
having the time of your life
see that girl, watch that scene
dig in the Dancing Queen

You’re a teaser, you turn ’em on
leave ’em burning and then you’re gone
looking out for another
anyone will do
you’re in the mood for a dance
and when you get the chance

You are the Dancing Queen
young and sweet only seventeen
Dancing Queen
feel the beat from the tambourine, oh yeah
you can dance, you can jive
having the time of your life
see that girl, watch that scene
dig in the Dancing Queen).

(continua)

domingo, 15 de outubro de 2006

Deu chabu! I

O Pará merece uma eleição como esta: sentida, sofrida, suada. E que só será decidida, de fato, no último minuto do segundo tempo.

Para mim, não apenas jornalista, mas, sobretudo, cidadã, este é um momento extraordinário. E estamos, todos, de parabéns: tucanos, petistas, peemedebistas, pefelistas... E os mais que compreendam o significado da política, no cotidiano social.

Não acredito que estejamos separados por muitos pontos percentuais. Para mim, estamos embolados. E assim seguiremos, até o final. Daí a emoção desta partida, tão inusitada, diga-se de passagem.

Enquanto escrevo, tenho a informação de que, na cidade, há carreatas de petistas, a comemorar o Ibope, e de tucanos, a comemorar o Vox Populi. Quer dizer: deu chabu!

E é muito bom que seja assim. Porque demonstra, que, todos os que estamos na linha de frente, temos uma percepção muito correta da realidade. E que lutaremos até o fim, por aquilo em que acreditamos. Com a agilidade que uma “guerra” como esta requer.


Mais que isso, porém, é preciso considerar o recado da sociedade paraense nestas eleições: está dividida, é plural, evoluiu muitíssimo e espera de nós – todos – justamente essa compreensão.

Se Almir ou o PT entenderão isso, são outros quinhentos. Porque, nós, caro leitor, (e que ninguém nos ouça) sabemos bem o quanto eles são semelhantes na intolerância, na arrogância, nessa incapacidade perniciosa de conviver com o diverso.

Tenho para mim, porém, que o poder vem sendo uma experiência pedagógica considerável, aos companheiros petistas. Está lhes mostrando que, entre o branco e o preto, existe a imensa zona cinzenta. Humana. Intrínseca e despudoradamente humana. E com a qual, para além do sonhado paraíso, é preciso lidar.

Já Almir tem contra ele a cristalização do que é. O tempo que formatou comportamentos e certezas, que dificilmente serão modificados. Em relação a Jatene, representa um claro retrocesso, em termos de convivência democrática.

Já admirei – e quem sabe ainda admire – profundamente, o “velho”. Mas, não perco de vista o Eclesiastes: tudo tem seu tempo sobre a Terra...

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Deu chabu! II

Deu chabu, e aí? Bem, podemos nos quedar, perplexos, diante de tudo isso. Ou considerar mil teorias conspiratórias. Ou, ainda, buscar uma compreensão mais fria desse baralho, aparentemente, enlouquecido.

Por sorte, passei umas boas horas, na tarde de hoje, conversando com um bom amigo, de lucidez estonteante. Que, igual a mim, é claro que joga. Mas busca, sobretudo, observar e compreender os diversos jogos.

Depois de muito conversar, chegamos à premissa do embolamento. Estabelecida, pelo que estamos vendo. Muito além dos números, que sabemos de “pronto a servir”.

De um lado, o desespero, para superar o prejuízo, que o salto alto deixou atrás. Do outro, a tentativa, igualmente desesperada, da transferência de votos.

Nenhum dos lados cantando vitória, mas batendo e se defendendo, como Deus possa permitir. E até apelando. Uns, para o descolamento do picolé de “chuchumbo”, no dizer do Zé Simão. Outros, a depoimentos de chorosos “iludidos”.

Ambos, certamente com base em pesquisas internas, evitando perpetrar milímetro de erro. Pau a pau. Enquanto preparam, é claro, a tão esperada caixinha de maldades, para a reta final. Mas se estudando, para perceber onde dá para quicar.

Vale salientar que é nos programas eleitorais que desembocam as certezas. Ainda que restritas a uma ou duas pessoas da produção. Ou que cheguem em linguagem cifrada...

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Deu chabu! III

É claro que o primeiro ponto a considerar - manifesta aquela premissa - é a hipótese de um “acordo nacional”, digamos assim. Mas, mesmo em tal caso, é impossível não pensar, também, em “afagos” locais. Afinal, a “nossa dama” não se deixa levar por acordões. Quer o michê taludo depositado na própria conta. Vai daí que o noivado já pode ir de vento em popa. Sem, necessariamente, o conhecimento de muitos...

Mas, nos coloquemos em ângulo diferente: sejamos, a mulher traída.

Bem, se quiséssemos detonar o indigitado, bastaria trair – publica, ou, restritamente, a quem nos interessasse.

Mas, se quiséssemos detonar a amante, faríamos dela a infiel, com provas, aparentemente, cabais.

O problema é que a segunda hipótese é um jogo perigosíssimo: e se a amante conseguisse comprovar a inocência e, entre a profusão de lágrimas, despejasse, sobre o “marido”, todo o seu ardor?

E, no primeiro caso, se não quiséssemos afastar o indigitado de vez, por que o trairíamos publica ou restritamente, antes de um compreensível e firme recado?

Parece-me mais lógico, então, o “acordo nacional”. E com juras de amor eterno, a nível local...

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Deu chabu! IV

Se for assim, o jogo se torna mais complicado. Suponhamos que a mulher traída nem suspeite. E lá continue, com todas as forças, a acarinhar animal. Crente de que, através dele, alcançará todos os sonhos possíveis. Mesmo que eles incluam, lá para a frente, descartar-se de criatura tão complexa.

Novamente, teremos, pelo menos, dois cenários hipotéticos. Mas, adivinhem leitores? Novamente, já bebi muito – e quero beber em paz. Além disso, cansei de dar uma de pastor: pensem vocês! Mas, não esqueçam dos outros jogos: do Barão de Inhangapi e do Comendador das Àguias. E da Barbie Princesa, que é bem mais esperta do que parece. Virem-se. FUUUUUUUIIIIIIIIIIIII!!!!!!

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Em tempo: a cidade foi agitada por boatos sobre a apreensão do jornal oficial, por força da liminar que impedia a divulgação da pesquisa do Ibope – liminar solicitada, vejam só, pela União pelo Pará. A boataria foi afastada, por advogados e repórteres que correram a cidade, sem encontrar vestígio disso. Mas permanece a dúvida acerca do que acontecerá, ao fatal encontro das carreatas amarelas e vermelhas. Espero, sinceramente, que todos consigamos manter o principal: juízo.


E para comemorar! Ou: eles pegam e depois a gente ajeita!



Vermelho


A cor do meu batuque tem o toque e tem o som da minha voz
Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante,
Vermelhão!
O velho comunista se aliançou ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom e a expressão da minha cor: vermelho!
A cor do meu batuque tem o toque e tem o som da minha voz
Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante,
Vermelhão!
O velho comunista se aliançou ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom e a expressão da minha cor
Meu coração!
Meu coração é vermelho!
De vermelho vive o coração!
Tudo é garantido após a rosa vermelhar
Tudo é garantido após o sol vermelhecer
Vermelhou o curral, a ideologia do folclore
Avermelhou.
Vermelhou a paixão, o fogo de artifício da vitória
Vermelhou.
Vermelhou o curral, a ideologia do folclore avermelhou.

sábado, 7 de outubro de 2006

Dominum

Um excelente Círio a todos vocês!



A Perereca, em clima de Círio, presta homenagem à Divindade. E se curva, como todos devem fazer, enfim.

Mais, ainda, porque já passou pela experiência de quase morte. E sentiu a mão Dele, a resguardá-la.

Aliás, antes daquele acidente, eu nem acreditava em Deus. Depois, soube, constatei, que, de fato, Ele existe.

Este é, enfim, o tributo necessário Aquele que me protegeu na hora mais difícil da minha vida.

E que decidiu me conceder mais alguns anos de vida.

Não sei bem o porquê. Mas Ele sabe, não é mesmo?


Adeste Fideles

Adeste, fideles, laeti triumphantes;
Venite, venite in Bethlehem.
Natum videte Regem angelorum.

Venite adoremus, venite adoremus,
Venite adoremus, Dominum.


Salmo 91

Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.

Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nEle confiarei.

Porque Ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa.

Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas estarás seguro: a sua verdade é escudo e broquel.

Não temerás espanto noturno, nem seta que voe de dia, nem peste que ande na escuridão,

nem mortandade que assole ao meio dia.

Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido.

Somente com os teus olhos olharás, e verás a recompensa dos ímpios.

Porque tu, ó Senhor, és o meu refúgio, o Altíssimo é a tua habitação.

Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará a tua tenda.

Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos.

Eles te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra.

Pisarás o leão e o áspide, calcarás aos pés o filho do leão e a serpente.

Pois quem tão encarecidamente me amou, também Eu o livrarei.

Pô-lo-ei num alto retiro, porque conheceu o meu nome.

Ele me invocará, e Eu lhe responderei.

Estarei com ele na angústia, livra-lo-ei e o glorificarei.

Dar-lhe-ei abundância de dias, e lhe mostrarei a minha salvação.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Do front

Uma Perda Tremenda!



A Perereca presta homenagem sentida a duas guerreiras extraordinárias: Araceli Lemos e Sandra Batista.

O fato de não terem sido eleitas é uma perda imensa para as oposições, o Pará e o Brasil.

Divirjo tanto do PC do B, quanto do PSOL. Mas respeito o que projetam para o mundo. Pela sinceridade e idealismo de seus militantes.

E penso que Araceli e Sandra são guerreiras honradas, destemidas e fundamentais. Pena que o Pará seja este atraso que todos conhecemos.

Mas, tenho certeza, vocês continuarão em frente. Até porque não é um percalço desses que vai derrubar os mulherões que são vocês!



O Bêbado e a Equilibrista


Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos
A lua tal qual a dona dum bordel
Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel
E nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas, que sufoco louco
O bêbado com chapéu coco fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil, meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete
Chora a nossa pátria mãe gentil
Choram marias e clarisses no solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente
A esperança dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista tem que continuar

(João Bosco e Aldir Blanc)

domingo, 1 de outubro de 2006

Dividindo Angústias II

Uma noiva perereca



Após a totalização dos votos, não há dúvidas que, em se confirmando o segundo turno, o PMDB terá sido o grande vencedor das eleições paraenses. Passe ou não para o segundo. Porque será a noiva mais cobiçada dos últimos 12 anos. Com direito a toda sorte de denguinhos. E a questão é saber se essa noivinha perereca conseguirá não apenas parecer, mas, principalmente, ser honesta...

Dividindo Angústias

E vamos nós, outra vez!


Se o Ibope e as ORM confirmam segundo turno, quem sou eu para duvidar? Vou é relaxar e tomar mais uma. Porque esses 29 dias serão cruéis.

No segundo turno, a máquina será levada a pleno vapor. E por um comandante cerebrino. Capaz de bancar, no perobal, todos os michês.

Todas as capacidades serão acionadas, mesmo em outras esferas de poder. Vai correr sangue, muitos cairão.

Mas quero é ver como ele vai solucionar a questão mais complexa: a indisfarçável, inelutável, insofismável incapacidade de o “velho” terminar o mandato. E de assumir, no lugar dele, quem, todos sabemos...

Com mais quatro anos pela frente, a partir de 2010, diga-se de passagem. Queira ou não o cerebrino comandante da máquina. Até porque, certamente, será o primeiro a enfrentar o exílio...


Priante ou Ana Júlia, quem seria o melhor, pelas oposições? Confesso, que nesse sentido, permaneço na legião dos indecisos. Logo eu, que formo opinião...E que detono de meia dúzia pra cima. Sorrindo...

De um lado, Priante, talvez, possua maior capacidade de agregar forças ao centro e de debater com o “velho” – se conseguir dosar a agressividade.

Mas Ana é do PT. E não, apenas, do PT. É de corrente minoritária, que amarga essa condição porque inflexível a determinados comportamentos, digamos assim. E que, também, tem trânsito e jogo de cintura.

E eu fico pensando até que ponto essa história de a Ana ser despreparada e “fraquinha” não é puro machismo. Afinal, ela não é filha de sicrano, nem mulher de beltrano. É Ana Júlia e ponto. Uma mulher que cavou o próprio espaço político, numa sociedade historicamente dominada por homens.

Os gaúchos e paulistas têm heroínas avassaladoras. Mas, nós, paraenses, que heroínas temos, afinal? Bom, se alguém gritar Severa Romana, eu vou ali e já volto...

Por que se exige das mulheres uma capacidade infinitamente superior a de qualquer homem? Por que temos de ser semidivinas, sempre que tentamos alcançar o espaço amplamente dominado pelo grande macho branco?

Por que não podemos aparentar medos, inseguranças, absolutamente normais a todo e qualquer ser humano?

Se um homem gagueja, é porque se confundiu. Mas, quando gaguejamos, é como se o mundo viesse abaixo.

Se um homem não tem resposta imediata, bem que pode culpar a própria assessoria. Mas, se nós, mulheres, cometermos um erro assim, seremos carimbadas como despreparadas...

Ana Júlia é uma pessoa. Como toda e qualquer pessoa.

Amanhã, decido se lhe dou ou não um crédito.
E sei que há muito tucano por aí pensando, exatamente, do mesmo jeito...


Uma Experiência



Vou repartir com os companheiros tucanos uma experiência.

Trabalhei com Valéria, por mais de um ano. Não me posso queixar de sua amabilidade, educação, simpatia. É uma dama.

Lembro que Valéria chegou a me dizer, certa vez, que eu pertencia a equipe dela – e não do governo.

E lembro das tentativas dela e de vários assessores – com efetivo poder de mando – para que nos aproximássemos.

Mas nunca me permiti isso. Porque sempre compreendi que, um dia, estaríamos em campos opostos.

Gosto de Valéria. Acho que é uma pessoa extremamente sagaz, gentil, educada – e essa é uma qualidade que aprecio muito. A capacidade de dizer obrigada, sempre. De tratar bem à senhora do cafezinho e de não descontar nela os males do mundo.

Mas há, aqui, um problema de fundo. De compreensão da realidade. Que não nos faz nem melhores, nem piores. Nem anjos, nem demônios. Mas que é um problema de concepção a considerar.

Para Valéria e o PFL, de um modo geral, distribuir óculos e cestas básicas é algo meritório. É bom. Para além da sagacidade política, existe uma espécie de cumprimento do dever. É, talvez, uma certa mentalidade cristã. De ajudar o “pobrezinho” porque, de alguma forma, culpado dessa condição.

Daí o Presença Viva, um programa essencialmente assistencialista, ter se tornado o carro-chefe da Seeps. Ele dava consultas médicas, óculos, certidões, sei mais o quê. E, certamente, nunca passou pela cabeça de Valéria questionar se tudo isso que se estava “dando” não era, simplesmente, um direito...

Nós, tucanos – e também o PT, se quiser sobreviver – temos de ter infinita capacidade de compreensão diante de tal raciocínio. Nós, tucanos e petistas, já estamos muito pra cá da Revolução Francesa e do nascimento do Cidadão: já discutimos a factibilidade democrática; os desvãos da democracia; os limites da tolerância.

Mas a direita brasileira permanece, ainda, no tempo do direito divino dos reis. Distribuem-se “favores”, simplesmente. Não há impostos, direitos, deveres, bens socialmente produzidos – e que precisam, portanto, ser socialmente repartidos. Há uma riqueza magicamente produzida por capacidade solitária. Inexiste, enfim, o pressuposto societário daquilo que pode vir a ser considerado humano.

Mas a direita representa uma fatia considerável do pensamento brasileiro. Então, não é possível, simplesmente, excluí-la: é preciso lidar com isso. Porque, a alternativa, é o autoritarismo.

É preciso, então, uma ação pedagógica. Que começa pela sociedade. Para empurrar essas pessoas, esses cidadãos, a uma outra compreensão do mundo.

Sinceramente, já bebi muito – até comemorando o segundo turno. Raciocinem vocês, daí pra frente. Vou mais é encher a cara. FUUUUUIIIIIIII!!!!!!

PS: Viva Aécio!!!!!!